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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

PT e Renan agradecem a Maia. Já Temer...

Agradecimento (Foto: Arquivo Google)
Mara Bergamaschi, O Globo
Quando conseguiu eleger-se presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ) fez um agradecimento público ao PT, que, na surdina, despejara votos no candidato do DEM para ajudá-lo a vencer o Centrão de Eduardo Cunha — o arquirrival responsável pelo impeachment de Dilma. Agora é a vez de o PT agradecer a Maia.
Graças à sua decisão de deixar que fossem votadas, na sinistra madrugada de quarta-feira, emendas que desfiguraram o pacote anticorrupção, o partido acuado há dois anos pela Lava-Jato — cujo líder já pediu a prisão do juiz Sérgio Moro e tem uma estratégia para desqualificá-lo no exterior —, conseguiu enfim ir à forra: votou praticamente em bloco, assim como PCdoB e PDT, autor da emenda, pela punição a promotores, procuradores e juízes.
A única exceção na bancada federal petista foi Andres Sanchez (SP). Chegamos ao ponto em que a Frente Brasil Popular, o arco da esquerda sem PSOL, Rede e PPS, se colocou frontalmente contra o que defende a iniciativa popular, que referendou com quase 2,5 milhões de assinaturas, o pacote proposto pelo Ministério Público.
Nem o PMDB e o PP, partidos que mais aparecem, ao lado do PT, nas investigações do petrolão, foram tão coesos nesse item — apesar de também terem dado ampla maioria de votos contra o MP e o Judiciário, assim como o DEM de Rodrigo Maia, o PR de Garotinho e o PTB do delator Roberto Jefferson.
À direita, desempenho igual ao do PT só o do PRB, do novo prefeito do Rio, Marcelo Crivella. Celso Russomanno foi o único voto não. Já o PSDB, com maioria favorável ao MP, o PSB e o PSD votaram divididos. Além do PT, Renan Calheiros (PMDB-AL) é outro que deve agradecimentos a Rodrigo Maia.
Autor do projeto de abuso de autoridade, que tenta há meses emplacar, Renan estava disposto até a interromper o recesso parlamentar para votar sua medida antes de deixar a presidência do Senado, em fevereiro. Com a aprovação, inesperada, da medida pelos deputados, Renan, cujo primeiro de uma dezena de processos deverá ser apreciado nesta quinta-feira pelo STF, ganhou uma ajuda e tanto do colega presidente da Câmara — algo impensável nos tempos de Eduardo Cunha, com quem não se dava, apesar de correligionários.
Aliás, preso em Curitiba, Eduardo Cunha é mais um que deve estar aplaudindo as decisões dos ex-colegas. Os políticos que temem a megadelação da Odebrecht poderiam se sentir vitoriosos e tranquilos com os feitos desta madrugada se não houvesse a vigorosa reação dos procuradores da Lava-Jato. Simplesmente irão renunciar à investigação se a medida que classificam como intimidação for aprovada.
O Judiciário também já reagiu e não deve deixar barato. Há ainda um detalhe que complica e instabiliza tudo: desde 2013, as ruas têm apoiado integralmente o empoderamento do Ministério Público. É esta bomba que Rodrigo Maia — agora em busca do voto não da população, mas de seus colegas para ser reconduzido —, acaba de colocar no colo de Michel Temer.
O presidente que no domingo queria acalmar a Nação propondo vetar, ao lado de Maia e Renan, a anistia ao caixa dois. Falta dizer o que fará com o resto.
Mara Bergamaschi é jornalista

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