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quarta-feira, 13 de abril de 2016

O tolo na estrada do rei


Os cristãos dizem que todos nascem cristãos. Os ateus dizem que todos nascem ateus. O Profeta do Profano diz que todos nascem pagãos. Os ingênuos dizem que todos nascem puros. Os médicos dizem que todos nascem paridos. Engano. Todos nós nascemos tolos.
O primeiro e maior tolo foi Sócrates. "Eu só sei que nada sei", disse ele. Somente tolos assumem sua tolice em público. E somente tolos dispendem sabedoria sem ganhar coisa alguma com isso.
Como o tolo pode ser sábio? Um tolo não está consciente de sua tolice. Não sendo consciente, não faz perguntas nem busca por respostas.
Apenas tolos precisam fazer perguntas e mais tolos os que buscam as respostas.
A busca constrói um caminho, o caminhar forma a excelência e o excelente se torna rei. E o rei dos tolos é aquele que se senta no trono, confiando plenamente na solidez dos alicerces de suas verdades.
Como todos somos tolos, proliferamos a tolice. Dos tolos vem os néscios, os ingênuos e os iludidos.
Dessa progênie o melhor é o bufão. Este é aquele que percorre pelas trilhas dos caminhos disposto a carregar o estandarte do rei dos tolos. Ser o portador da verdade se torna maior do que a busca por respostas e mais importante do que o caminhar.
Eis o bufão, confiante de que é o portador da verdade, torna-se arauto do rei dos tolos. Arrebanha em sua volta os néscios, os ingênuos e os iludidos. A platéia se torna seu escudo. Não há mais perguntas, não há mais busca, não há mais caminho, a paisagem se torna asséptica e estéril.
Houve um tolo que tropeçou em sua própria tolice. O tolo caiu e sentiu o choque, mas não despertou, culpou a pedra no caminho. Quando acabaram as pedras, ele culpou o caminho. Quando acabaram os caminhos, ele culpou a região. O tolo sempre irá atribuir a culpa a outrem, para se justificar e para se esquivar da sua responsabilidade.
Houve um tolo que retomou a fazer perguntas e a buscar respostas. O tolo retomou a caminhada, a excelência e a tolice da realeza. O tolo retomou o trono e tolamente sentou no pedestal que ele mesmo se ergueu. Logo surgiram bufões, néscios, ingênuos e iludidos dispostos a reverenciá-lo, segui-lo, obedece-lo. Eis que surge a tolice institucionalizada. E os tolos chamam a isto de Conhecimento.
Houve um tolo que percebeu seu estado e sentiu o gosto amargo do despertar, da consciência, da verdade, da realidade. O tolo cortou sua língua e tratou de proibir que outros tolos quisessem comer e beber. E os tolos chamam a isto de Igreja.
Houve um tolo que percebeu que o problema não é real e sentiu-se tolo em fazer perguntas e procurar respostas a algo que não existe. O tolo apegou-se ao problema, pois lhe era impensável viver sem seu problema.
Houve um tolo que descobriu todas as respostas a todas as perguntas. O tolo apegou-se a continuar na busca, pois lhe era impossível viver sem ter perguntas.
Houve um tolo que descobriu que a resposta está, invariavelmente, na própria pergunta. O tolo colocou a pergunta acima de quem a criou. E outro tolo colocou a resposta abaixo de quem a busca. E outro tolo chamou isto de Ciência.
Houve um tolo que cansou-se de ler, ouvir, pensar e fazer tolices. O tolo percebeu que a consciência e a responsabilidade é individual. O tolo despertou para a irrealidade dos problemas, das perguntas e da busca de respostas. O tolo empenhou-se em viver sua tolice. O tolo deixou que os tolos cuidem de suas tolices. Eis o tolo que redescobre o simples prazer de viver livre. Os tolos chamaram a isto de Ofício.

TERRA EM TRANSE

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