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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Dos grandes negócios à disciplina na cadeia

 
Com fama de banqueiro arrojado, André Esteves, fundador do BTG Pactual, enfrenta a rotina do presídio Bangu 8 no Rio de Janeiro... 

A vida não está nada fácil para André Esteves. Um dos mais festejados banqueiros do País, que emergiu da classe média do bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, e muito conhecido pelo seu “espírito animal” para fazer negócios, Esteves está preso, há 12 dias, sob suspeita de tentar obstruir as investigações da Operação Lava Jato, que apura corrupção na Petrobrás. 

Levado para o presídio Bangu 8, no Rio de Janeiro, não teve o mesmo tratamento vip de outros empresários, executivos e doleiros também presos na Lava Jato, que conquistaram “pequenos luxos” em suas celas, como chuveiro quente e TV, no Complexo Médico­Penal em Pinhais, na região metropolitana de Curitiba. 

“O André está bem, na medida do possível. Muito indignado, mas estamos trabalhando para tirá­lo de lá”, afirmou ao Estado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. Conhecido por defender políticos e celebridades, como o cantor Roberto Carlos, Kakay disse que está empenhado em desenhar uma estratégia para tirar Esteves da cadeia. Negou que seu cliente esteja recebendo privilégios – como “quentinhas” do badalado restaurante Antiquarius, no Leblon, da zona sul do Rio – conforme noticiado pela imprensa carioca na semana passada. E para justificar que ele não tem recebido tratamento diferenciado, Kakay confirmou que o cabelo do banqueiro foi cortado com máquina 1. 

Também não quis dar detalhes sobre a rotina de Esteves em Bangu 8, mas deixou escapar que o “pessoal do presídio (funcionários) afirmou que o banqueiro é uma pessoa disciplinada”. Esteves tem recebido a visita de sua mulher, Lilian, de Kakay, que o defende da ação criminal, e de outros advogados. 

A prisão do banqueiro, na manhã do dia 25 de novembro, pela Polícia Federal causou estrago no mercado financeiro. As units (pacote de ações) do BTG despencaram, os títulos de dívidas externas (bônus) já estão sendo negociados como os de instituições próximas do calote e o banco foi obrigado a tirar André Esteves do grupo de controle para acalmar os investidores e tentar conter uma fuga em massa de capital. Na sexta­feira, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), instituição privada financiada por uma porcentagem de depósitos dos bancos, anunciou socorro ao BTG ao liberar uma linha de crédito de até R$ 6 bilhões para garantir um colchão de liquidez à instituição. O banco tem reforçado que está colaborando com as autoridades. 

Mas as incertezas sobre o futuro do BTG continuam. As expectativas, agora, se concentram no teor da denúncia criminal que deverá ser apresentada, nos próximos dias, pelo procurador­geral da República, Rodrigo Janot, contra o senador Delcídio Amaral (PT­MS) e seu chefe de gabinete, Diogo Ferreira, e de Esteves, que foram presos no mesmo dia. Janot deverá propor abertura de ação penal contra eles, que são suspeitos de terem tentado subornar Nestor Cerveró, ex­diretor da área internacional da Petrobrás, para evitar que ele revelasse esquemas de corrupção da Petrobrás. O advogado de Cerveró, Edson Ribeiro, também foi detido. Kakay disse que os argumentos apresentados para a prisão de Esteves não são sólidos e evitou especular o teor da possível denúncia de Janot. 

Determinado. Conhecido pelo jeito agressivo de fazer negócios, André Esteves, de 47 anos, é, ao mesmo tempo, admirado e temido pelo mercado. Entre seus pares, o 13.º homem mais rico do Brasil até então, segundo a revista Forbes, é tido como um gênio dos negócios, mas ao longo de sua trajetória colecionou alguns desafetos. 

De estagiário a presidente de um dos maiores bancos de investimentos do País, formou­se em matemática e se especializou em informática pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Teve uma ascensão meteórica – começou como estagiário no antigo Pactual, em 1989, controlado pelo ex­banqueiro Luiz Cesar Fernandes, que percebeu o grande potencial de Esteves à época. Tornou­se sócio do banco quatro anos depois e, em 1999, o então controlador Fernandes foi destituído do banco por seus quatro sócios, entre eles Esteves, por estar altamente endividado com as empresas que tocava paralelamente à instituição.

Em entrevista à revista Piauí, em 2006, Fernandes chegou a dizer que “Esteves era capaz de vender a própria mãe”, mas em entrevista ao Estado, concedida por telefone na quinta­feira passada, voltou atrás. Disse que se arrependeu do comentário feito no passado e tentou se redimir: “É um sujeito inteligente, dedicado e trabalhador e que foi vítima do seu sucesso.” Perguntado sobre o futuro do BTG sem Esteves, afirmou que não acredita que o banco consiga ter tanto destaque sem ele. “Os controladores atuais são competentes, mas não têm o brilho de André.” 

Para tentar conter a crise que se abateu sobre o BTG, o banco anunciou uma reestruturação societária. A instituição passou a ser controlada por sete de seus principais executivos, entre eles, Persio Arida, que se tornou presidente do conselho; e Marcelo Kalim e Roberto Sallouti, que passaram a dividir a copresidência do BTG. Esteves se mantém como acionista, mas não participa mais da gestão. O banco está se desfazendo de ativos, vai reduzir de tamanho e luta, agora, por sua sobrevivência. 

O clima de desânimo dentro do banco no dia do anúncio dessas mudanças de estrutura era geral. “Temos de tirar o nosso amigo de lá”, disse uma fonte, que esteve com um dos sócios na semana passada. 

Workaholic, Esteves costuma ter uma rotina pesada de trabalho e não tem uma vida social muito agitada. “É muito comum marcar reuniões no fim de semana para discutir as estratégias do banco”, disse uma fonte do mercado financeiro, que foi muito próxima do banqueiro. E costuma usar sua ampla casa de cerca de 4 mil metros quadrados, no Jardim Europa, para essas reuniões. 

De acordo com fontes, Esteves foi adquirindo refinamento ao longo dos anos. Tornou­se colecionador de obras de arte contemporânea e montou uma gigantesca adega na sala de sua casa. “O Eike Batista ostentava uma Lamborghini. Já o Esteves tem uma adega em sua sala, logo após o hall de entrada, que conta com rótulos dos vinhos mais caros, todos identificados com placas”, disse uma outra fonte, que já participou de alguns jantares de negócios na casa do banqueiro. De acordo com essa mesma fonte, Esteves trocou recentemente seu jatinho por um modelo mais moderno – e US$ 20 milhões mais caro – com chuveiro e cama para enfrentar a maratona de viagens no exterior. 

Abalados com a prisão do pai, os três filhos do banqueiro se ausentaram da escola bilíngue frequentada pela elite paulistana, mas voltaram à rotina aos poucos na semana passada e contam com a solidariedade dos amigos, de acordo com uma outra fonte. 

A camaradagem só não é a mesma entre seus pares. Piadas sobre a prisão de Esteves começaram a pipocar no WhatsApp horas depois de sua detenção, com trocadilhos feitos com as iniciais do banco. Habituadas antes a condensar expressões como “Back to the Game” (De volta ao jogo) e “Better Than Goldman” (Melhor do que o Goldman, alusão ao banco americano Goldman Sachs), em função do fato de Esteves ter recomprado o controle do banco (vendido ao UBS em 2006), as três letras passaram a fazer referências a brincadeiras como “Better Than Guantánamo” (Melhor que Guantánamo – prisão americana em Cuba). “Um dia é da caça, outro do caçador” era o comentário mais frequente de seus concorrentes, que perderam muitos negócios por conta da astúcia de Esteves. 

Anos 90. Com bom trânsito no governo, Esteves teve seu nome citado há mais de 15 anos, durante investigações das operações realizadas pelos bancos Marka e FonteCindam no processo de desvalorização do real, em 1999. O banqueiro era diretor de operações do então Pactual e foi apontado por Alberto Cacciola (executivo do Marka) como participante de um esquema de venda de informações privilegiadas pelo Banco Central. Nada foi comprovado. 

Se condenado no caso da Lava Jato, não poderá mais voltar ao mercado financeiro. Mas sua aposentadoria não está decretada. Quem o conhece, diz que Esteves pode voltar a surpreender. “Encantador, considerado um gênio, poderá voltar ao jogo e ser bem ­sucedido em outra área”, afirma um concorrente. 

ESTADÃO

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