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domingo, 22 de novembro de 2015

Corrupção: corruptores e corrompidos, a dura face de uma sociedade podre...



           
"Molhar a mão": geralmente funciona para acumular patrimônio 

Em ciclos, e conforme as conveniências políticas dos setores sociais que disputam o poder, o tema "corrupção" vem sendo debatido com razoável veemência nos últimos anos. Assim como o foi, sucessivamente, décadas atrás, sempre no âmbito das disputas pelo comando do Estado, da máquina pública, de prefeituras à presidência da república e pelo parlamento também nos três níveis.

De modo geral, essa luta tem uma síntese muito fácil de ser compreendida: quem está fora do poder utiliza a corrupção, a sua denúncia, para atingir quem está no exercício do poder, como elemento de desgaste, desmoralização, mobilização de forças, evidentemente com o intuito de enfraquecer os governantes de plantão e eles próprios - chamemos genericamente de oposição - assumirem o controle do Estado. Essa dinâmica é tão antiga quando a própria existência da civilização!

A corrupção é um cancro antigo
Desde o desenvolvimento dos primeiros Estados organizados, em algum grau, a corrupção tem sido manejada como instrumento de manutenção do poder ou de luta contra ele. Portanto, a luta política travada no Brasil na atualidade, o denuncismo infernal sobre corrupção - real/irreal - não tem em si nenhuma novidade significativa. Sequer é novidade o sentimento popular de que "políticos, são todos iguais, um bando de ladrões", que acaba sendo estimulado, amplificado, pela ausência absoluta de critérios nas denúncias, o que acaba jogando tudo e todos numa vala comum.

Costumo dizer que a coisa está tão mal parada que insinuação vira verdade, fofoca vira prova, reputações são enlameadas por manchetes e depois, culpas não comprovadas, figuras públicas pagam um preço altíssimo por esse tipo de comportamento de boa parte da grande imprensa, ávida por manchetes, escândalos, sejam reais ou imaginários.

Para além das manchas nas biografias, aprofunda-se o sentimento de que a democracia não vale a pena e que quanto mais avança a participação popular – principalmente com gente do povão ocupando postos importantes nas esferas do poder – pior fica a situação, exigindo, portanto, uma “reelitização” da política, ou seja, ela deveria ser feita apenas pelos “iluminados” da nação. Não caiam nessa armadilha! Ela não é aleatória, mas parte de uma estratégia muito bem urdida pelas antigas elites dominantes que vêm seus espaços de poder sendo sucessivamente diminuídos pelo fortalecimento de novas forças oriundas das camadas populares, e tem como objetivo central restringir ao máximo a participação popular. Sigamos!

Qual é a raiz da corrupção? Porque ela existe? O que é corromper? O que é ser corrupto? Essas questões precisam ser olhadas com uma atenção muito aguda. Não há respostas simplórias, muito menos aquelas que buscam identificar o problema apenas como sendo de fundo “moral”. Como está anteriormente exposto, a corrupção é tão antiga quanto o desenvolvimento das civilizações e exatamente nestes elementos – passados e intensamente presentes – é que temos que buscar as raízes da questão. Para podermos, aí sim, refletir de modo consistente sobre como combater esse verdadeiro câncer social.

Um primeiro elemento que necessita ser destacado para compreender a corrupção está no fato de que – desde os primórdios da civilização – vivemos em sociedades profundamente divididas em classes sociais, geralmente antagônicas e que disputam entre si o controle da sociedade. Essa luta intestina pelo comando das rédeas do poder para definir quem dá as cartas, quem estabelece as leis, quem manda e quem obedece, mesmo que esteja regulamentada por leis, cria uma situação de “vale tudo”. E no vale tudo, comprar consciências, subornar personalidades para que elas mudem de lado, comprar votos, etc, é parte integrante da disputa e vai continuar a ser assim por um largo tempo histórico. Não tenho ilusões quanto a isso!

A corrupção, portanto, é uma das formas de se obter vantagens as mais diversas - do poder político a livrar-se de uma multa; para obter prestígio ou acumular bens - e enquanto vivermos em sociedades nas quais riqueza pessoal e poder andarem de mãos dadas, ela estará sempre presente e maior ou menor grau. Mas é inerente a esse tipo de sociedade.Só a título de exemplo, a "imaculada" igreja católica foi profundamente corrupta desde a sua instituição como religião de Estado no imperío romano, do século IV em diante e promoveu e protagonizou inúmeros casos de corrupção, incluindo o suborno a reis, ou por eles ser subornada para contar com apoio político, venda de "perdão" até através de bancos, etc. A relação é bem comprida!

Poderia ficar páginas e páginas fazendo longas citações históricas sobre como a corrupção esteve presente ao longo do desenvolvimento das civilizações, desde que os primeiros guerreiros, ainda na pré história, tomaram a terra para si e colocaram os outros membros da tribo/comunidade, como escravos ou a eles submissos de alguma maneira.  O "pecado original" da desigualdade - a posse da terra e dos meios de produção por parte de alguns em detrimento de todos -  é o pai/mãe da corrupção.


                 

Do real ao ilusório, a denúncia da corrupção como arma política 

Na nossa "terra brasilis" a corrupção em si, ou a presunção de corrupção, o seu uso como arma política através do denuncismo amplo, geral e irrestrito, já foi motivo para golpes, contragolpes, deposição de presidentes e mobilizações populares para combater este ou aquele governo, de prefeitos a presidentes. Na verdade, de um modo ou de outro, essa prática - corromper, ser corrompido ou simplesmente denunciar com ou sem motivo real - vem desde a instalação dos portugueses, por volta de meados do século XVI. Dos primeiros "governadores gerais" representantes dos reis lusitanos na colônia, até a atual presidência da república, nossa história é recheada de episódios reais ou orquestrados, tendo a corrupção como mote inicial. Não somos hoje mais ou menos corruptos do que sempre fomos. Nem o Brasil, nem qualquer outro país dividido em classes sociais.

Portanto, a lenga lenga de que existe uma explosão de corrupção no país após a chegada de Lula à presidência em 2003, não passa de pura manipulação grosseira de uma parcela grande da poderosa mídia milionária que hegemoniza os veículos de informação por aqui. É luta política pura e simples! Afinal, essa mesma oligarquia midiática, quando a ela interessa, encobre desavergonhadamente as falcatruas de partidos e lideranças políticas que ao seu lado estão. Isso também não é nenhuma novidade. É apenas mais um capítulo do clássico lema "aos amigos, tudo. Aos inimigos, a lei!". No caso da mídia, a prática é: "aos amigos, silêncio. Aos inimigos, manchetes!"

Insisto em um ponto: esses setores da grande burguesia nacional, que têm na mídia sua porta voz perante o grande público, está profundamente assustada com a perda de espaço para setores mais populares, ligados aos movimentos sociais diversos e a partidos políticos de orientação esquerdista, resultado das inúmeras contradições de um país que passou décadas por uma prolongada crise econômica e relegava a imensa maioria da população à simples condição de gado no curral. À medida em que existe uma intensa movimentação social positiva na última década, com dezenas de milhões de pessoas do povão galgando postos de mando junto aos poderes da república bem como melhorando coletivamente o padrão de vida - o que pressupõe que alguém lá na ponta enriquecida perde espaço nos dois campos - a nossa elite histórica luta com todas as forças para desmoralizar esse amplo movimento progressista. No limite, jogam com a confusão e com a cortina de fumaça "todo político é igual, todos são corruptos mas esse zé povinho que manda no país hoje, por serem pobres na origem, são mais corruptos ainda". 

Que fique claro: evidente que há corrupção no país e ela precisa ser combatida sim. Corruptos -corruptores e corrompidos - precisam ser julgados, condenados e cumprir penas nos termos da lei. Leis não faltam! Mas que fique também muito bem firmado em nossas consciências: acreditar que vamos eliminar a corrupção e continuar mantendo uma sociedade que gera enorme riqueza para uns poucos e imensa pobreza para a maioria - no Brasil e no mundo - é o mesmo que acreditar que vamos mudar o mundo sem mudar as estruturas do sistema capitalista. Não vamos! No máximo, vamos nos iludir. Por isso digo que não tenho ilusões quanto a isso.

Ser radical não é fazer discurso inflamado, vociferar feito louco contra tudo e todos. Radical é quem vai à raiz do problema e, a partir da sua identificação, aponta soluções. Pois bem! Eis a raiz! A erradicação total do problema só virá com a erradicação total das suas causas! O resto é perfumaria, luta política ou falta de profundidade histórica.


Postagem original em http://palavrasaotempo.blogspot.com.br/2012/01/corrupcao-corruptores-e-corrompidos.html

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