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sábado, 8 de agosto de 2015

Dilma tira a legitimidade que a urna deu a Dilma

“Ninguém vai tirar a legitimidade que o voto me deu”, bradou a presidente da República numa solenidade de entrega de chaves de casas populares nesta sexta-feira (7), em Roraima. Engano. Há na praça uma pessoa capaz de transformar em problema aquela que havia sido eleita como solução dos 54 milhões de brasileiros que lhe deram o voto em 2014. Chama-se Dilma Rousseff a responsável pelos atentados cometidos contra a legitimidade de Dilma Rousseff.
Assim como seu talento gerencial, também a capacidade de liderança de Dilma é invisível a olho nu. Num regime presidencialista, caberia a ela governar o processo de superação das crises que sua inepcia criou. Mas Dilma, atordoada com seu próprio legado, é desgovernada pelos acontecimentos.
O Datafolha mais recente expôs o alargamento do abismo que se abriu entre a Dilma da reeleição e a Dilma que em sete meses de expediente dedica-se a produzir o caos. O software da campanha, 100% feito de João Santana, era pirata. O sistema operacional do segundo mandato roda o programa do PMDB na política e o do PSDB na economia. Sem agenda, a placa da gerentona ferveu. Um espirro de Michel Temer ou de Joaquim Levy pode levar ao tilt que travará a máquina.
Evocadas por Dilma sempre que está em apuros, as urnas de 2014 deram um aviso muito nítido. Após prevalecer sobre Aécio Neves por uma diferença de pouco mais de 3 milhões de votos, a criatura de Lula presidiria um país rachado ao meio. No discurso da vitória, a reeleita parecia ter captado a mensagem: “Essa presidente está disposta ao diálogo, e esse é meu primeiro compromisso no segundo mandato: o diálogo”, discursara na noite da contagem dos votos.
Dilma acrescentara: “Em lugar de ampliar divergências, de criar um fosso, tenho forte esperança que a energia mobilizadora tenha preparado um bom terreno para a construção de pontes. O calor liberado no fragor da disputa pode e deve agora ser transformado em energia construtiva de um novo momento no Brasil.” Da “energia” sobrou apenas o vapor. O “novo momento” tornou-se uma escala a caminho do caos.
Hoje, Dilma não consegue dialogar nem com o espelho. Ela se desentende com os aliados falando o idioma deles —a linguagem do fisiologismo. Ao farejar a impopularidade da presidente, os governistas já não se deixam seduzir por qualquer tilintar de verbas e cargos. No Congresso, o preço do reconhecimento da legitimidade de madame subiu. A cotação do apoio sincero está pela hora da morte.
Há três dias, Dilma foi novamente humilhada na Câmara. Dessa vez, atravessaram-lhe na traqueia a aprovação de uma “bomba fiscal”. O placar foi eloquente: 445 X 16. Repetindo: 445 deputados votaram contra os interesses do Planalto. Para aprovar a abertura de um processo de impeachment são necessários apenas 342 votos.
Dilma talvez devesse fazer algumas perguntas aos seus botões. Por exemplo: quando começa o caos? Eles decerto responderão: “O caos principia no instante em que a bancada de deputados federais do PT vota em peso a favor do projeto que sua presidente tachou de bomba fiscal.”
O que é o caos? E os botões: “Não há melhor definição para o caos do que a conversão de Renan Calheiros em herói da resistência contra as emboscadas de Eduardo Cunha.”
Onde fica o caos? “Localiza-se em várias partes do mundo, todas elas no Brasil”, dirão os botões. “No momento, divide-se entre o Congresso Nacional, sob cujo teto coabitam 35 parlamentares suspeitos de receber propinas, e os cárceres de Curitiba, que abrigam Odebrechts, Vaccaris e outros azares.”
Quando lhe bate o desespero, Dilma costuma fugir da realidade à maneira do avestruz. Enfia a cabeça nas profundezas da sua autoestima e vira a página. Para trás. No discurso de Roraima, ela retornou ao túnel do tempo: “…Quero dizer para vocês que ao longo da vida eu passei muitos momentos difíceis. Eu sou uma pessoa que aguento pressão. Aguento! […] Eu respeito a democracia do meu país. Eu sei o que é viver numa ditadura.”
Deve-se louvar o apreço de Dilma pela democracia. Nela, há remédios contra a falta de credibilidade que faz definhar a legitimidade. Se parasse de conspirar contra si mesma, Dilma poderia se dedicar a atividades menos dolorosas do que ficar recordando a tortura dos tempos da ditadura. Quem sabe encontrasse tempo para tarefas menores como, digamos, trabalhar.
Se preferir, Dilma pode continuar penetrando no caos. Logo perceberá que a legitimidade, quando desacompanhada da credibilidade, é como o amor do Soneto de Fidelidade de Vinicius de Moraes: não chega a ser imortal, posto que é chama. Mas é infinita enquanto dura.
JOSIAS DE SOUZA

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