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sábado, 8 de agosto de 2015

Dez anos depois, memórias do furto ao Banco Central não se apagam

Segunda-feira, 8 de agosto de 2005, nove e pouco da manhã. A notícia de que a caixa-forte do Banco Central (BC), em Fortaleza, tinha sido violada chegou ao stand de tiro da Polícia Federal (PF) dois dias depois do furto de R$ 164,7 milhões (por um túnel que desembocava no coração do BC). “Estava ministrando um treino”. O policial federal Enéas Martins, 50, lembra-se bem. “Fui a primeira pessoa a entrar no túnel. Dava para rastejar, de cócoras. Suei muito, muito mesmo”. 
As impressões digitais da memória de quem vivenciou, de alguma forma, o maior assalto a banco no País compõem a última matéria da série sobre os dez anos do furto ao BC – iniciada pelo O POVO no dia 21 de julho. Entre a noite de uma sexta-feira e o amanhecer de um sábado, 5 e 6 de agosto de 2005, quatro homens de uma quadrilha especializada realizaram um rombo milionário na caixa-forte do BC por um túnel de 80,5 metros de comprimento, 65 centímetros de largura e 70 centímetros de altura e a quatro metros de profundidade de uma das avenidas mais movimentadas da Capital.

“Em 20 anos de profissão, foi um acontecimento bem diferente na minha vida. Rastejei por 50 minutos dentro de um túnel que, se eu tivesse claustrofobia, teria ficado lá”, volta Enéas. Sem saber aonde o túnel o levaria e o quê ou quem encontraria nas profundezas, ele desceu pelo buraco que emergia da caixa-forte “com uma metralhadora na mão, uma pistola na outra e uma lanterna na boca”. Foram minutos sem fim ou comunicação, entre sujeira (“não havia bichos, mas tinha muitos copos”) e medo: “O rádio não funcionava”. Dentro da estrutura “bem arquitetada”, os ventiladores ainda estavam ligados. A cena, real, era de suspense. E se os criminosos estivessem ali? E se...?

A história segue pela casa 1.071 da rua 25 de Março, no Centro, onde a quadrilha instalou uma empresa de grama sintética de fachada e de onde partiu o túnel. Depois de rastejar por quase uma hora, ele conta, removeu os escombros e o tablado que tapavam o buraco. “Foi a parte mais penosa. Estava em uma casa muito escura, cheia de sacos de areia. E não tinha a mínima ideia de onde estava”, reconstitui escuridão e silêncio. “Eles queriam tanto a escuridão que pregaram colchões nas janelas”.

Deixando para trás pegadas na cal que os criminosos espalharam pela casa, incontáveis sacos de areia, sobras de comida e trocados em moedas de R$ 0,50, o policial avançou pela dezena de cômodos, até o telhado, apontando as armas para o nada.

“SAUDADES”
Enquanto as investigações procuravam pistas nos breus do crime, um taxista (que pediu para não ser identificado) volta ao meio-dia do domingo, 7 de agosto de 2005. “Eles estavam tão tranquilos... O roubo não tinha sido descoberto. Disseram: ‘O senhor não tenha pressa, o voo é só 15 horas’”, retrata. Ele teria conduzido parte da quadrilha, de uma transportadora na avenida Humberto Monte ao Aeroporto Pinto Martins.
Eram “uns sete ou oito” mais mulheres e crianças, somando “umas 15 pessoas”, diz. “Na transportadora, estava como se fosse uma festa... Eles estavam de ressaca. Um que falou: ‘Estou com saudades de Fortaleza, cidade maravilhosa!’... Eles foram muito ‘artistas’ até em comemorar: estavam numa felicidade, numa paz de espírito!”, admira-se. Tendo como passageiros líderes do furto milionário (segundo reconheceria pela TV), o taxista observou que “o cansaço era grande. O que ia na frente quase se deitou no banco”.

Para ele, parte dos R$ 164,7 milhões furtados “saiu pela porta da frente (da Cidade), pelo aeroporto”. Ele conta que uma “Silverado, com placa de Sobral, lotada de sacolas comuns” acompanhou o táxi, “à distância de 100 metros”. “Eles não deixaram ninguém pegar nas sacolas. Quase todas eram excesso de peso”, calcula. A corrida custou “na faixa de R$ 27, 30” e foi paga com uma cédula de R$ 50.

Depois de dar o troco, o taxista seguiu a vida. O policial federal teve um filho, para quem guarda “muita história para contar e muita filmagem de invasões táticas para mostrar”. A PF recuperou cerca de R$ 40 milhões, entre dinheiro e leilões. O túnel foi fechado ainda em agosto de 2005. Há penas de uma centena de anos, outras foram cumpridas, existem foragidos.

E a história não tem fim. Ressurge, de tempos em tempos, em arquivos, memórias e imaginários.
O POVO

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