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segunda-feira, 22 de junho de 2015

Passados 17 anos, famílias ainda vivem no lixão desativado

Famílias habitam o entorno da montanha de lixo que provoca danos à natureza
Famílias habitam o entorno da montanha de lixo que provoca danos à natureza FOTO: NATINHO RODRIGUES




Ainda há lixo, fezes, lama, entulhos, bichos e entre tudo isso, gente. Aos pés da montanha que guarda toneladas de resíduos despejadas durante 20 anos no Jangurussu, em Fortaleza, famílias refugiam­se. Passados 17 anos do fim do lixão, a área de 24.000m², encoberta por vegetação, abriga miséria. Impactos do descarte não planejado que não desaparecem e condenam pessoas e o meio ambiente a resistirem à degradação no bairro onde renda e lixo, historicamente, mantêm relação direta.

O mato é adereço permanente na rampa que, por dentro, projeta­se ainda concentrar gases tóxicos. Da vegetação brota o chorume ­ líquido resultado da decomposição dos resíduos ­ e há indicativos que o mesmo escorre para o Rio Cocó, levando mais poluição ao recurso hídrico já condenado. Aos homens e mulheres, que insistem em sobreviver irregularmente no canto que já foi lixão, sobram resistência e resignação para lidar com o cenário tão comprometedor.

As doenças batem nas portas dos barracos, a lama ­ em épocas de chuva ­ invade as moradias, sobram cachorros infectados por calazar e mosquitos para atormentar o sono. Ainda assim, dificuldades maiores sentidas em outros locais, segundo os moradores, os empurram para os pés do lixão. Privações vividas no passado repetem­se. Os habitantes da pobreza não Se a chuva chega no antigo lixão, a criança de 11 meses de vida dormirá com a rede elevada e os pais não terão descanso. As águas do Cocó sobem e os poucos objetos dos casebres partem. A lama, conforme contam os moradores, chega misturada ao chorume. "É assim a vida. Viemos do Interior para esse barraco aqui, mas falta muita coisa", relata a dona de casa, Mara Maria Sousa, de 21 anos natural de Choró (177 km de Fortaleza), que há 10 meses integra a comunidade.

Contaminação

O grau de contaminação do solo e da água do entorno do antigo lixão foram medidos em meados de 1999, logo após sua desativação. Porém, depois disso, há lacunas sobre o diagnóstico da situação negativa. "Vemos quando um líquido escorre pelo mato e segue para o Cocó. As vezes quando o sol está muito forte, escorre mais", relata Mara Maria, apoiada pela vizinhança.


Em 2010, a pesquisa "Análise da Qualidade das Águas Superficiais e Subterrâneas sob Influência do Lixão do Jangurussu como Subsídio às Práticas Comunitárias em Educação Ambiental e de Saúde", realizada pelo professor do curso de Gestão Ambiental do Instituto Federal de Ciência, Educação e Tecnologia do Ceará (IFCE), Gemmelle Santos, confirmou que o chorume, de fato, contaminava o Cocó. Hoje, o poder público afirma não saber precisamente qual a condição do local.

Uma Estação da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) instalada no local é responsável pelo tratamento do chorume. O engenheiro civil e presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental ­ seção Ceará (Abes­Ce), André Pinto, aponta que falhas na impermeabilização, e na própria drenagem do chorume que está sob o lixo, podem estar impedindo a chegada do mesmo na Estação, fazendo com que o líquido seja desviado para o Rio.

A geração de gases nocivos no Jangurussu também é situação não monitorada. Alheios à gravidade de tais efeitos, os habitantes do antigo lixão, seguem erguendo casebres e retornando ao local após cada tentativa de retirada, executada pelo poder público. Retorno para um risco, já que, segundo explica o representante da Abes, os gases poluentes são produzidos em lixões, no mínimo, até 20 anos após a desativação.


Reciclagem

No bairro, onde a renda média por pessoa é R$ 416,00, segundo o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), a reciclagem ainda impera na busca por remuneração. É um campo possível e viável. Em uma rotina certa e organizada, ou apenas quando "falta comida", a "sobra" dos outros é matéria­prima para centenas de moradores ­catadores do bairro.

"No dia que não tem nada, a gente bota a carroça e segue. Vai atrás de lixo, do que for. Recolhe e vende", explica a dona de casa, Alcidéia de Souza, enquanto trata de vestir e acalmar os netos, que correm no meio dos entulhos indiferentes à vulnerabilidade em que vivem. A rotina é a mesma de outros tantos vizinhos­catadores que, na ausência de renda formal, apegam­se à atividade primordial na cadeia da reciclagem.

Assim foi no passado e também é hoje. Para quem viveu percalços na grande rampa e fez do lixo refúgio, agora, restam memórias. Na Associação dos Catadores do Jangurussu (Ascajan), o cenário é diferente, mas o ponto de partida é o mesmo. "Criei minha filha trabalhando em cima do lixão. Passamos coisas ruins e até doenças, mas hoje sou recicladora", assegura Sebastiana do Carmo Alves, coordenadora da Ascajan e uma das muitas mulheres que vivenciou a transformação do Jangurussu.

Protagonista


De tão naturalizada, a relação entre a comunidade e o antigo lixão acontece sem alarde, apesar de concentrar algumas queixas. Para a dona de casa Alcidéia de Souza, 65, o contato com a área que abrigou o lixão está mais intenso há seis anos, mas foi no fim de 2014 que ela, junto a nove filhos e sete netos, mudou­-se definitivamente para os pés da rampa. Da reciclagem avulsa, resulta uma renda média de cerca de R$ 200, que serve para alimentar a família. Os resíduos são vendidos para sucatas e galpões facilmente encontrados no bairro. Quando o lixo não é volumoso, resta a família sobreviver da doação de vizinhos, cuja situação financeira não é tão diferente. Mas, a empatia viabiliza a partilha. Para o futuro, os planos são os de resistir aos pés do lixão, apesar dos riscos, das doenças e da insalubridade.

DIÁRIO DO NORDESTE



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