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terça-feira, 30 de junho de 2015

Cem anos depois da seca de 1915, disputa pela água continua no Ceará

Moradores usam carrinho conhecido como ''mané magro'' para carregar água  (Foto: TV Verdes Mares/Reprodução)
Moradores usam carrinho ''mané magro'' para carregar
água (Foto: Reprodução/TV Verdes Mare)
A água desapareceu das torneiras em Crateús, a 360 km de Fortaleza. A população carrega como pode o pouco que consegue em um dos poços públicos e há gente que usa roupa suja para poupar a água da lavagem. O 'mané magro', uma engenhoca do sertão, ajuda no transporte dos recipientes. Segundo os moradores, a fila da disputa para encher os baldes se forma às 3h da manhã. As cenas registradas em pleno século XXI ainda remontam ao sofrimento da seca de 1915, há exatos 100 anos, retratada na obra da escritora Rachel de Queiroz.
Francion da Costa é um dos que madrugam para levar 200 litros de água para a família. Até o caminho de casa, ao lado da mulher, o atendente conta com a ajuda do "mané magro". "Ouvia pessoas mais velhas que diziam que carregavam de 'mané magro' a água de chafariz. Voltamos para o tempo do 'mané magro' de novo”, diz.   O "mané magro"  fez parte do cotidiano do que passaram pela estiagem. O carrinho é usado para ajudar as pessoas a carregarem galões de água, muitas vezes por quilômetros de distância.
O aposentado José Rodrigues é um dos companheiros de Francion na disputa pela água em Crateús. Os dois já presenciaram brigas na hora de encher os baldes e garrafas. “O negócio é sufocante. Muita gente naquele sufoco, sol quente, muito calor e todos querendo pegar água. Às vezes, a água não dá para todos. Tem de ficar no sol, aguardando se não os outros tomam a frente da gente. Roubam os baldes da gente, roubam as tampas. Tem dia que tem briga”, relata José.
Se o Ceará vive três anos anos seguidos de estiagem - sem contar a previsão de 2015 -, em Crateús, a seca começou antes. Faz pelo menos cinco anos que não chove o suficiente para recarregar o açude Carnaubal, que abastece a cidade. É a primeira vez que isso acontece, desde que o açude foi inaugurado há 25 anos.
Novos hábitos
Se água virou artigo raro, os moradores de Cratéus tiveram que mudar os hábitos. Muitas pessoas afirmam que tiveram de deixar lavar roupa. “Não estamos lavando roupa. Estamos usando as roupas sujas mesmo, vestindo e tirando as roupas sujas. Bota no sol e torna a vestir de novo. É assim porque não tem água para lavar”, diz uma das moradoras.

Além de não lavar roupa, a comerciante Célia Silva resolveu usar o mínimo de louça. Os pratos, copos e, até talheres, usados nas refeições da família são de plásticos descartáveis. Para muitos, a economia pode parecer extrema, mas ela afirma ser  fundamental para garantir algo de que não abre mão: um banho. “Mesmo com essa economia, banho é um por dia e olhe lá. Feliz de quem tem sorte de tomar um banho por dia”.
Os comerciantes da cidade também tiveram de se adaptar. Vanderlei Camelo parou de usar toalhas nas mesas e copos de vidro. Ele diz que, com a falta d'água, o custo para manter o restaurante aberto aumentou. “A gente chega a gastar em torno de R$ 500 por semana. Hoje, um carro-pipa está em torno de R$ 250. Você compra sete mil litros d'água. Então, dois pipas d'água por semana já foge do nosso orçamento”, calcula.
Tragégia anunciada
Para os moradores, o colapso no abastecimento de água em Crateús foi uma tragédia anunciada. Há três anos, o açude Carnaubal era motivo de preocupação. Em 2012, o reservatório estava com apenas 30% da capacidade e o risco de, no mínimo, ter a água racionada.

Em 2013, não choveu e o racionamento aconteceu. Como medida emergencial, o Governo do Estado decidiu transferir para Crateús metade da água do açude Flor do Campo, em Novo Oriente, mas a população da cidade foi contra liberar a água pelo leito seco do Rio Poti e se mobilizou para evitar a abertura das comportas.
Mesmo com a sugestão da construção de uma adutora até Crateús, o que evitaria perdas, a decisão da Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (Cogerh) foi abrir as comportas. Quarenta porcento da água foram perdidos no caminho de 60 quilômetros entre os dois açudes e a água que chegou a Crateús durou pouco. “A gente teve mais água nas torneiras, mas acabou. Agora, a gente só espera pela vontade de Deus”, conclui a dona de casa, Lúcia Bezerra.
Pouca chuva 
A previsão da Fundação Cearense de Recursos Hídricos (Funceme) é de mais um ano de pouca chuva. O Sertão dos Inhamuns sofre ainda mais. É a região do estado com a menor média anual, apenas 400 milímetros. Os açudes estão praticamente zerados, apesar de estarmos no meio da estação chuvosa. Em Novo Oriente, o que choveu até agora foi suficiente para encher um pouco o açude Flor do Campo. A qualidade da água melhorou, mas o reservatório ainda vai levar muito tempo para se recuperar. A água continua bem longe da parede.

Cem anos depois de uma das maiores secas da história, a página parece não ter sido virada. A disputa pela água deve continuar este ano em todo o Ceará. Os reservatórios estão em níveis críticos. O maior deles, o Castanhão, tem apenas 25% de água, abastece Fortaleza, a 300 quilômetros, mas não atende os moradores de Jaguaretama, onde fica uma parte do açude.
"É muita gente para pouca água”, lamenta um dos sertanejos já acostumados às adversidades. Nos períodos difíceis, mantém a fé e redobra a reza por mais dias "bonitos para chover". “Tendo um bom inverno, tudo vai ter com fartura. Água principalmente porque a água é a vida”, espera a dona de casa, Antônia de Souza Motta.
DO PORTAL G1 CE

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