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sábado, 16 de maio de 2015

Se a saúde pública na capital está na UTI, no interior a situação é ainda pior


Se a situação dos hospitais em Fortaleza está crítica, com pacientes atendidos no chão e nos corredores por falta de macas e leitos, o problema no interior do Ceará é ainda mais complicado.

Apesar da existência de hospitais regionais em Sobral e Juazeiro do Norte, a demanda ainda não conseguiu ser suprida, superlotando os dois maiores hospitais do estado, Instituto Dr. José Frota (IJF) e Hospital Geral de Fortaleza (HGF), ambos na capital.

“Parte da demanda que chega a Fortaleza é decorrente do subfuncionamento das unidades do interior. Os hospitais estão sendo subutilizados. O Hospital do Cariri, por exemplo, tem porte para fazer cirurgia neurológica, mas estamos com fila de 18 pacientes aguardando no HGF. Outras 500 esperam por cirurgia ortopédica”, sinaliza a presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará, Mayra Pinheiro.

O Hospital Regional do Cariri, inaugurado em 2011, atende 45 municípios da região. Dois anos depois, superou a marca de 1 milhão de atendimentos. Já o Hospital Regional Norte, em Sobral, foi inaugurado em 2013 com um show de R$ 650 mil de Ivete Sangalo, mesmo sem funcionar com 100% dos atendimentos da unidade. O Hospital Regional do Sertão Central, em Quixeramobim, não tem previsão para o início do funcionamento.

Um morador de Quixeramobim e funcionário da obra, que preferiu não se identificar, acredita que o hospital esteja 80% concluído, apesar de inaugurado. “O governo deu a obra como concluída, mas dentro do hospital não tem nem parte elétrica no setor superior. Alguns funcionários estão trabalhando levando com a barriga”, reclama.

Falta de médicos e de recursos

A falta de médicos nas diferentes regiões é tão grande que se mostrou necessário o uso de aviões para transportar profissionais de Fortaleza a Sobral, distante 223 quilômetros da capital. De acordo com Mayra, um concurso público ajudaria a fixação dos médicos nos municípios. “Não tem concurso nem para médico nem para profissional não-médico. Normalmente, a mesma coisa que falta na capital falta no interior. Hospitais estruturados, antibióticos, médicos”, alerta a presidente do sindicato.

De acordo com o secretário-geral do Conselho Regional de Medicina (Cremec), Lino Antônio Cavalcanti, a escassez de recursos nos municípios dificulta a gerência dos hospitais. “Os municípios não têm recursos para gerir as unidades. Por exemplo, um hospital que necessite de R$ 100 mil para se manter só recebe R$ 30 mil. Os pacientes, então, têm que ser tratados em Fortaleza”.

O remanejamento de profissionais do Programa Saúde da Família (prestação de assistência integral continuada em unidades de saúde e em domicílio) para atuarem como plantonistas de hospitais também contribui para a superlotação das unidades. “Eles deixam de atender as famílias, que é o compromisso do programa, e acabam desviando de funções. Isso aumenta o número de pessoas buscando atendimento médico em hospitais”, conclui Mayra.
Na próxima semana, representantes do Simec, Associação Médica Cearense, Ministério Público e Ordem dos Advogados do Brasil visitarão o interior a fim de documentar a situação da saúde nos municípios cearenses. “A gente está pregando o que já é previsto nas convenções de direitos humanos. A gente não vai aceitar o discurso de que a saúde vai melhorar a partir de contratação de 48 novas macas para o hospital. Corredor é falta de dignidade. Não vamos nos calar enquanto médicos”, prometeu.

“A gente não vai aceitar o discurso de que a saúde vai melhorar a partir de contratação de 48 novas macas para o IJF”. (Mayra Pinheiro)
O prefeito Roberto Cláudio visitou o IJF na última terça-feira (12) para verificar a situação dos atendimentos. Segundo ele, os casos de pacientes atendidos no chão ocorreram por falha no “fluxo de processos, e não por falta de macas, como foi noticiado”. Afirmou ainda que a unidade adquiriu 48 macas para reserva técnica.


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Secretaria da Saúde
De acordo com a assessoria da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), a rede de saúde era concentrada na capital há cinco anos, mas foi estruturada em diferentes regiões do estado, “com atendimento perto de casa, sem necessidade de deslocamento para Fortaleza”. Mensalmente, são repassados R$ 114 mil aos 36 hospitais-polos do estado. “Todos os serviços especializados estão mantidos, incluindo a traumatologia”, assegurou a assessoria.

Corredômetro

Desde abril, o Sindicato dos Médicos divulga a Campanha do Corredômetro, com números de pacientes sendo atendidos no corredor de hospitais da cidade. Na checagem feita diariamente pelo Simec, 397 pacientes se encontravam sem leitos nesta terça-feira (12) em hospitais de emergência de Fortaleza. Quando o levantamento passou a ser feito, no dia 22 de abril, eram 235 pacientes atendidos em corredores, o que indica uma piora no quadro. No momento, existem 99 pacientes sem leitos nas UPAs, 116 no IJF, 60 no HGF, 55 no Hospital de Messejana, 57 no Hospital Infantil Albert Sabin e 10 em Hospital São José.

O estudo apontou que, além de pacientes em situações indignas, os médicos também sofrem desgaste físico e emocional, pela falta de estrutura (física e material) e de segurança, bem como salários atrasados, como é caso dos médicos da emergência do HGF, que estão sem receber salários desde março. De acordo com Mayra, no hospital faltam luvas de procedimento e sabão para os profissionais de saúde lavarem as mãos.

TRIBUNA DO CEARÁ

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