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quinta-feira, 23 de abril de 2015

Prefeito é preso com R$ 20 mil de propina no meio da rua


Contratos de R$ 9,5 milhões de Prudentópolis estão sob investigação. Político é acusado de se unir ao filho para montar esquema criminoso. 


O Repórter Secreto do Fantástico foi ao interior do Paraná para investigar as negociatas da prefeitura de Prudentópolis e trouxe flagrantes de corrupção explícita. Leia as conversas que mostram como obras e verbas públicas viraram um negócio de família. Cadê o dinheiro de Prudentópolis?
Em um dia de semana em fevereiro deste ano, um prefeito do interior do Paraná dá um pulo em Curitiba. Para defender na capital os interesses da cidade? Negativo. Para cuidar de interesses muito particulares: propina.
O Ministério Público está monitorando cada passo do homem. Ele é Gilvan Agibert, na época o prefeito de Prudentópolis. Tranquilo, Gilvan bate papo com um amigo e entra em um prédio, repare na maleta no vídeo. Instantes depois, já está na rua de novo, e a polícia vai para cima dele.
Polícia: Somos policiais militares.
Dentro da maleta tem o quê? O envelope
Polícia: O envelope amarelo. Abre aí. Mostra o que tem dentro.
São R$ 20 mil. Dinheiro sujo dado por uma empresa que faz coleta de lixo. E isso é só o começo. Quase R$ 10 milhões em contratos da prefeitura estão sendo investigados.
Para o pessoal de Prudentópolis, o dinheiro que sobra na mão de Gilvan faz falta na cidade. “Falta hospital, falta atendimento na saúde, falta ambulância, falta segurança”, diz a moradora de Prudentópolis Raquel Navroski.
Dona Raquel faz parte da comunidade de descendentes dos ucranianos que ajudaram a construir a bela Prudentópolis. Hoje, são cerca de 80% da população de 50 mil habitantes. Ela aproveita para cobrar das autoridades, em ucraniano, Cadê o dinheiro que tava aqui?.
Pois o repórter Eduardo Faustini está em Prudentópolis para fazer essa mesma pergunta. Depois da prisão de Gilvan Agibert, o Gaeco - Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, do Ministério Público do Paraná, foi à casa do prefeito para fazer busca e apreensão.
Gaeco: Quer abrir aí para nós?
Quem abre o cofre é Thiago, um dos filhos de Gilvan. Ele justifica assim a dinheirama guardada em casa. “Mas, isso aí é o trabalho de uma vida inteira. Mas eu não tenho certeza de quanto tem aí”, diz Thiago.
Gaeco: Não, a gente vai contar, você vai acompanhar.
Antes de contarem o dinheiro, os agentes acham um revólver dentro de uma caixa com R$ 10 mil. As investigações comprovaram que a arma é fria. Não está registrada nem no nome de Gilvan, nem de ninguém da família.
E o dinheiro?
Ao todo, R$ 59 mil. A origem desse dinheiro está sendo investigada. Perto do que Gilvan é acusado de movimentar por baixo dos panos, isso pode parecer mixaria. Afinal, 9,5 milhões em contratos da prefeitura estão sob suspeita.
Na primeira fase da investigação, quesito propina, o Gaeco descobriu quanto?
“No mínimo R$ 100 mil de propina recebida, que a gente comprovou que o prefeito recebeu”, afirma o coordenador do Gaeco em Guarapava, Vitor Hugo Honesko.
Gilvan Agibert tinha tudo anotadinho, quanto recebia de quem. “A contabilidade dele foi apreendida junto com ele no momento da prisão”, Vitor Hugo Honesko.
O Repórter Secreto do Fantástico foi até duas empresas vencedoras de várias licitações em Prudentópolis. Elas ficam no mesmo endereço.
Em um galpão, a empresa que fazia obras nas ruas de Prudentópolis. A empresa é de um laranja do prefeito. Essa empresa é do prefeito, segundo o Ministério Público.
“Essa empresa, ela funcionava para fazer dinheiro para o prefeito”, afirma Vitor Hugo Honesko.
Já, já você vai ver como funcionava o laranjal do prefeito e de um dos filhos dele. A segunda empresa fica dentro da primeira. A sede não passa de um quartinho. Nele funcionava uma empresa responsável pela limpeza do município. Veja no vídeo, o estado das vassouras que eram usadas na limpeza do município.
O repórter Eduardo Faustini encontra o homem que aparece no papel como dono das duas empresas. Ele se chama Nelson Alves de Oliveira, vulgo Nelsinho.
Nelsinho: É minha empresa, sim. A empresa é minha, como que não é minha?
Eduardo Faustini: E o prefeito e o filho do prefeito?

Veja como ele responde: “Até se for provar, empresa é minha”, diz Nelson Alves de Oliveira.
Quando foi depor no Ministério Público, ele abriu a boca sobre um dos esquemas, o do calçamento da cidade. “O prefeito chegou em mim e falou o seguinte: ‘a partir do dia que você ganhar essa licitação e dar do lucro a metade para o Rodrigo’, ele ajeitava para mim o serviço de calçada. E eu peguei e concordei. A partir daí, o Rodrigo tinha lucro em tudo”, explica Nelson Alves de Oliveira.
Quem é Rodrigo?
Rodrigo Agibert é filho mais velho de Gilvan Agibert. Na prática, o verdadeiro dono dos negócios tocados pelo Nelsinho junto com o prefeito.
Em uma conversa, Nelsinho e Rodrigo falam sobre equipamentos da empresa.
Nelsinho: Eu comprei carrinho, a pá, cortadeira.
Rodrigo: Não tinha mais isso aí?
Nelsinho: Ter, tem. Mas estraga, né?
Rodrigo: Eu não aguento mais tirar do bolso, cara.

Em outra conversa, o papo é divisão de lucros.
Nelsinho: Eu dou dez para você, dez para o teu pai, dez para mim, pronto.
Rodrigo: É. Daí deixamos vinte em caixa.

“Essa empresa, ela era usada pelo prefeito para quê? Basicamente para subcontratar obra de outras empresas que venciam obras no município”, afirma Vitor Hugo Honesko.
Para o esquema dar mais lucro ainda, a quadrilha usava material da própria prefeitura. Inclusive para fazer obras particulares. Um homem, que foi secretário de obras de Prudentópolis, confirmou tudo no Ministério Público.
Promotor: Usavam muitas máquinas da prefeitura lá?
Teófilo Halachen: Geralmente pediam, né? Máquina para tirar uma pedra, tirar uma terra.

Para o Fantástico, ele ainda diz o seguinte: “Eu me sinto hoje um cara envergonhado. Sou sincero para vocês”, diz o ex-secretário de obras de Prudentópolis.

A bandalheira em Prudentópolis também envolve vereadores. Seis estão sendo investigados. Entre eles, dois que investigam o prefeito. Valdir Krik, por usar equipamentos da prefeitura na propriedade da família dele, e João Michalichen Neto, pelo mesmo crime, e também porque o filho dele é dono da empresa de ônibus que tem a concessão do transporte escolar e de passageiros.

Os dois dizem que não sabem de nada.
Fantástico: O senhor ficou surpreso de aparecer nesta lista de vereadores investigados?
Valdir Krik: Ah, com certeza, né? Como se diz, supostamente, né? Porque até agora não fomos notificados, então não sabemos, né?
João Michalichen Neto: No momento, não tenho conhecimento.

Além do então prefeito Gilvan Agibert, também foram presos temporariamente o filho Rodrigo e o laranja Nelsinho. Gilvan acabou sendo afastado da prefeitura. E expulso do partido dele, o PPS. O Fantástico tentou falar com ele e com o filho, em casa e por telefone, mas ninguém quis conversa.
Enquanto isso, o povo de Prudentópolis segue revoltado.
“Em Prudentópolis, nunca vi essas palhaçadas desses candidatos”, afirma o morador de Prudentópolis Pedro Sochodolak.
“É muito grande os desvios que estão aparecendo por aí de parte de corrupção, né?”, diz o Antônio Preslhak, morador de Prudentópolis.
Prudentópolis é uma cidade muito religiosa e reza por dias melhores. “O que eu acredito é na Justiça. Na Justiça terrena, na Justiça divina, que as pessoas deverão prestar contas de tudo”, afirma o padre Teófilo Melesh.
Por isso, a gente pergunta ao senhor ex-prefeito, em bom português, Cadê o dinheiro que tava aqui?
FANTÁSTICO - TV GLOBO

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