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quinta-feira, 9 de abril de 2015

Agente público que cumpre seu dever não pode ser tratado como herói

Com o título “Quem precisa de heróis?”, eis artigo do jornalista Plínio Bortolotti, que pode ser conferido no O POVO desta quinta-feira.
“Infeliz do povo que precisa de heróis” é uma frase dita por Galileu na peça a “A vida de Galileu”, escrita por Bertolt Brecht. Mesmo marxista, ou talvez por isso, o dramaturgo e poeta alemão devia concordar com a frase que ele obrigou o personagem a expressar. Porém, é perturbador verificar a atualidade contida nessas palavras, que se renovam a cada conjuntura – pelo menos nesse Brasil velho de guerra -, apesar de escritas em 1938, em plena ascensão do nazismo na Alemanha.
Tendo isso em mente sempre me causa estranheza quando algum funcionário público – seja um policial, promotor ou ministro da Suprema Corte – passa a exorbitar de suas funções ou a procurar deliberadamente os holofotes da “mídia”. Lembrando que alguns meios de comunicação ajudam a promover alguns desses “heróis”: por exemplo, Joaquim Barbosa (ex-presidente do STF) apresentado com a capa do Batman, um justiceiro perturbado (o homem morcego, quero dizer); ou o velho “caçador de marajás”, destinado a promover uma “limpeza” no serviço público, e cujo tapete foi puxado justamente por aqueles que o promoveram a ídolo; e, antes dele, os generais e seus cavalos.
Na edição de 5 de abril, o jornal Folha de S. Paulo publicou em sua capa uma foto posada dos nove promotores que investigam a operação Lava Jato (Petrobras), alinhados de modo parecido com o cartaz do filme protagonizado por Sean Connery, com o título, em letras maiúsculas: “Os intocáveis” – o mesmo nome da película que conta a história da prisão do mafioso americano Al Capone. (A favor dos promotores, diga-se que encenaram desarmados, diferentemente dos atores.)
O jornal fazer gracinha juvenil é um problema dos editores; os promotores se submeterem a tal papel é preocupante.
É admirável o trabalho desses promotores, mas para o bem da própria investigação e da seriedade e prudência exigidas pelo serviço público, eles deveriam se preservar, mantendo os pés no chão.
Plínio Bortolotti
Jornalista do O POVO.

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