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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

"Brasil pode entrar em novo patamar se houver reforma política", diz especialista


O professor José Tavares vê a situação atual no Brasil como um conjunto de paradoxos. "O primeiro é o paradoxo da política de inclusão social, como Bolsa-Família, aumento do emprego e de políticas repressivas de controle social, que se manifestam por uma polícia violenta e ineficaz", declara.
Outro paradoxo, diz, é a contradição entre a preservação do meio-ambiente, que se observa nos movimentos contra a construção da barragem de Belo Monte e as crises das fontes de energia. "Neste sentido, não só na Amazônia mas em todo o Brasil há uma discussão sobre outras fontes de energia, de modo a compor uma matriz energética polifacética. Recentemente, há aproximadamente 4 ou 5 anos, temos o diagnóstico de uma crise da água no Sudeste, que parece vinculada a erros e ineficácia de planificação".
A ameaça do retorno da inflação e a instabilidade econômica que o país atravessa também podem ser consideradas "paradoxais", segundo José Tavares. "Por outro lado, houve uma enorme transformação da infraestrutura brasileira. Um dos efeitos da Copa, entre outros, é que o parque de aeroportos para passageiros e cargas tem nível internacional. Há problemas de logística, mas está havendo um processo de modernização de portos, e até mesmo algumas tentativas de via rodoviária para o Pacífico, em convênio com o Peru e China".

A corrupção influencia a economia brasileira?

O professor José Tavares lembra que, nos últimos anos, houve um avanço na punição de empresários e políticos envolvidos em casos de corrupção –caso do Mensalão. “O impasse seria como essa presidente e esse governo legítimo, vai conseguir retomar o crescimento econômico e manter as políticas de inclusão social, um terceiro paradoxo. Tivemos desde o governo de Fernando Henrique uma enorme inclusão social. Isso faz com que haja uma diminuição da pobreza, mas não da riqueza. Os segmentos econômicos mais ricos, ou mantiveram ou aumentaram sua participação na renda nacional. Esse é um dos paradoxos do crescimento”.
Os movimentos socias em 2013, iniciados pelo Passe Livre, também demonstram uma evolução das reinvindicações. Há uma juventude, diz, que tem dificuldade de participar desse crescimento. Em relação à emergência de movimentos reacionários, ele acredita que são também fruto desse avanço social. "Respeito à diferença, empoderamento das mulheres, respeito aos direitos de orientação sexual, às cotas na Universidade no setor público para negros e indígenas, por exemplo".

Reforma política

Apesar de todos esses avanços, uma reforma política se impõe. Para o especialista, há uma crise de identidade das ideologias dos partidos políticos. "Há uma proliferação de partidos de aluguel, de partidos de clientela. A pauta que hoje está posta, é a da reforma política. Três aspectos são fundametnais: o financiamento das campanhas, fidelidade partidária, e a obrigatoriedade do voto. Se houver um sólido debate político, o Brasil pode entrar em um novo patamar".

Legitimidade da classe política

Para o sociólogo Alfredo Pena Vega, o diagnóstico de José Tavares é justo, mas existem riscos de deriva, ligados à legitimidade e ilegitimidade da classe política. "Legitimidade porque é uma democracia. Ilegitimidade porque há uma ‘cegueira’ em querer enxergar o que de fato está acontecendo. Três partidos têm uma base ideológica . Um de esquerda que virou social-democrata, que é o caso do PT, que governa com a direita. Tem uma direita conservadora que pode ser reacionária, e tem um terceiro, o da agroindústria, que pode estar presente no jogo democrático, mas sensível ao chamado das classes reacionárias do Brasil, que pedem o impeachement da presidente",conclui. 
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