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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Candidatos distorcem função de senador para atrair votos


Postulantes reforçam o discurso de que senador e governador devem ser do mesmo projeto para atrair recursos ao Ceará...


Candidatos ao Senado e ao Governo Estadual vêm tentando convencer os eleitores da importância de votar em postulantes da mesma chapa. A justificativa é que a sintonia entre governador e senadores atrai mais investimentos para o Estado junto ao Governo Federal. Cientistas políticos apontam que o alinhamento político não é determinante para se cumprir um bom mandato e acrescentam que os pleiteantes têm distorcido a real função do senador para persuadir o eleitor a votar em dobradinhas.
No Ceará, a maioria dos gestores que comandaram o Estado estiveram alinhados ao discurso dos representantes no Senado. Nas eleições deste ano, Mauro Filho (PROS) concorre a senador na chapa do pleiteante ao Governo Camilo Santana (PT). Já Tasso Jereissati (PSDB) disputa cadeira no Senado aliado à candidatura de Eunício Oliveira (PMDB) ao Executivo cearense.
O cientista político Valmir Lopes, professor da Universidade federal do Ceará (UFC), explica que o primeiro governo de Tasso Jereissati, de 1987 a 1990, foi de diálogo tímido com os senadores como Cid Saboia de Carvalho e Virgílio Távora, porque o tucano inaugurou uma ruptura com uma política considerada conservadora. "Ele não teve tanta maleabilidade com a classe política. A ideia era fazer um governo para frente", destaca.
Os governos que sucederam o empresário, declara o especialista, começaram a fortalecer as bases de apoio e estreitaram a relação com deputados federais e senadores. Ciro Gomes, eleito em 1990 para governar o Estado, foi um dos responsáveis para a formação de aliados que dessem sustentação à gestão estadual. Em seguida, Tasso volta e fica à frente da gestão estadual por mais oito anos. Nesse retorno, o cenário que antes era de ruptura passa a ser de continuidade da administração.
Hegemonia
Aliado do Governo Federal, à época dirigido pelo correligionário Fernando Henrique Cardoso, Tasso não enfrentou dificuldades na articulação com os senadores Lúcio Alcântara, Sérgio Machado, Beni Veras e Luiz Pontes. "Havia uma hegemonia do Fernando Henrique Cardoso e os senadores eram alinhados ao Governo Federal, mais ou menos como se tem hoje, só que com outra ideologia", ressalta. "Nos anos 90, a hegemonia era da centro-direita. Hoje é da centro-esquerda", completa Lopes.
Na avaliação do cientista político, o Governo Lúcio Alcântara, de 2003 a 2006, já não teria tanto domínio da bancada de senadores. Apesar de filiado ao PSDB de Tasso, o governador se aproximou do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Arquirrival do PT, Tasso Jereissati exercia o mandato de senador ao lado de Patrícia Saboya e Luiz Pontes.
"No caso do Lúcio e do primeiro governo Cid Gomes, os senadores estavam mais preocupados em servir. Nessa posição, não conseguiram nada", opina Valmir Lopes, citando o caso da Refinaria, equipamento pleiteado para o Ceará desde o Governo Tasso Jer eissati, mas sem expectativa de quando será instalada de fato no Estado.
O pesquisador opina que o alinhamento entre governador, senador e presidente da República pode facilitar a conquista de grandes empreendimentos para o Estado, mas pondera que deve estar relacionado a fatores como a articulação das lideranças em nível nacional. Para o docente, os candidatos estão vendendo uma falsa ideia ao eleitor, minimizando a função de senador.
"Hoje se propaga a ideia de que o senador é alguém que fica pegando malas de dinheiro em Brasília e trazendo para o Ceará. Isso é bobagem", critica Valmir, comparando com a distorção sobre a competência de deputado federal. "A luta de um deputado é por criação de políticas, influir na política pública nacional para que seus eleitores sejam beneficiados e não ficar migalhando recursos por emendas orçamentárias ou coisas do tipo", diz.
"Quando estiveram em jogo interesses do Estado do Ceará, não houve em momento nenhum senadores que se colocaram contra. Então dizer que tem que ter um senador do lado do governador, de certa forma, é falácia", pontua.
O cientista político Filomeno Moraes, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece), diz que divergências entre Executivo e Legislativo são secundárias quando o quesito é angariar investimentos para o Estado.
"As funções e competências de um senador estão muito mais vinculadas à ordem federativa do que, como as propagandas eleitorais recorrentes nas candidaturas querem fazer crer, à busca de recursos para o Estado. Não vejo como um senador, mesmo de oposição, lute para bloquear benefícios para seu Estado", argumenta.
O docente salienta que o compromisso dos legisladores com o mandato é mais importante do que o consenso. "O que é mais relevante é a qualidade dos senadores, se são pessoas mais envolvidas com as questões nacionais e com a ordem federativa ou se comportam como defensores ou obstaculizadores de interesses políticos paroquiais", justifica.
Lorena Alves
Repórter
DIÁRIO DO NORDESTE

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