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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Quem volta (e vota) com Marina, por Mara Bergamaschi


O iminente retorno de Marina Silva à disputa presidencial recoloca em destaque um personagem que parecia esquecido lá nas Jornadas de Junho: o eleitor irascível que exigia mudanças - traduzidas em melhores serviços públicos, mais cidadania e menos corrupção.
Aquela massa mal humorada das cidades, que gritava não se sentir representada, ocupou o centro do palco, ou melhor, das ruas e praças, há um ano, mas, de lá pra cá, foi perdendo voz. De protagonista passou a coadjuvante- ou mesmo a figurante -, na cena política.
Gente que, apesar de todos os protestos de 2013, acabou reunida e classificada agora nas pesquisas, quanta ironia, como desinteressada ou indecisa - aquele percentual (altíssimo) dos que pretendem votar em branco ou nulo.
Como não interferem no resultado final do pleito, já que contam apenas os votos válidos, acabaram, na prática, perdendo espaço. Acomodados em casa e nas estatísticas, os cidadãos insatisfeitos viram nos últimos meses o economês, linguagem em que poucos, infelizmente, são fluentes, dominar sem cerimônia a agenda dos candidatos e o debate eleitoral.
Tudo transcorria neste ambiente surpreendentemente controlado (se considerada a expectativa de que esta poderia ser uma eleição com povo na rua) até a queda do avião de Eduardo Campos. Antes mesmo de encabeçar oficialmente a chapa do PSB, Marina Silva teve o efeito de reduzir à metade o número de votos brancos e nulos, segundo o DataFolha.
Boa parte dos “órfãos de Junho” parece já encontrar refúgio na candidatura Marina. De volta ao bolão dos votos válidos, eles talvez consigam fazer surgir na campanha dela e dos demais candidatos respostas concretas à extensa pauta de reivindicações, eternamente pendente, escrita em cartolinas.
Espécie de Lula de saia, pelas semelhanças de origem social e luta política, a austera Marina Silva terá muito chão pela frente para tentar conquistar o eleitorado que hoje coloca em primeiro lugar Dilma Rousseff (PT).
Os acordos políticos Rede-PSB ainda não foram colocados à prova e a contradição entre a ambientalista de vanguarda e a devota evangélica também são uma incógnita. Se crescer na campanha, a candidata do PSB fatalmente terá de assinar sua Carta ao Povo Brasileiro para tranquilizar os mercados, como fez Lula em 2002. Seus eleitores, supostamente contrários “a tudo que esta aí”, resistirão a isso?

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