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segunda-feira, 21 de julho de 2014

CAMPANHAS POLÍTICAS - Discursos vazios ainda predominam na eleição


Passado o burburinho da Copa do Mundo, a tendência é que nos próximos dias o eleitor comece a se deparar de forma mais direta com o assédio dos candidatos que disputam um cargo nas eleições deste ano. Especialistas em marketing político afirmam ao Diário do Nordeste que as novidades nas campanhas se resumem a dois fatores: avanço nas tecnologias e frequentes mudanças na legislação. Para os consultores políticos, devem se sobressair a superficialidade nos discursos dos postulantes e a pouca inovação no modo de pedir voto.
Em âmbito nacional, o programa de Governo da presidente Dilma Rousseff, que tenta a reeleição, cita inúmeras vezes a palavra mudança como linha condutora para aprimorar supostas falhas na gestão. No Ceará, o governador Cid Gomes declarou, na convenção que homologou o nome de Camilo Santana para concorrer ao Governo Estadual, que o candidato não pode ser responsável por possíveis erros da atual administração.
A precaução com prováveis ataques da oposição é uma reação esperada dos postulantes da situação, que não estão propondo mudanças na forma de governar, mas se prevenindo de possíveis críticas. É o que garante o presidente da Associação Brasileira dos Consultores Políticos, Carlos Manhanelli. "Uma das técnicas do marketing eleitoral é dar uma vacina: já que a oposição vem com discurso de mudança, antes falo eu", aponta.
Reeleição
Carlos Manhanelli, que é professor de três universidades na Espanha e autor de livros sobre marketing político, explica as diferenças referentes às candidaturas que visam à reeleição. "O ambiente que predomina numa reeleição é o plebiscitário. Entra em evidência se continua ou não aquele governo", responde. "Enquanto a oposição tem um discurso de mostrar o que faltou, o Governo vai mostrar o que fez de benefícios à população", acrescenta o especialista.
No meio campo entre situação e oposição, transitam lideranças antes alinhadas ao Governo, mas que romperam por discordâncias ou falta de espaço político. Ex-governador de Pernambuco e concorrente a presidente da República, Eduardo Campos (PSB) é um desses exemplos. Até o ano passado, o PSB apoiava a presidente Dilma e detinha cargos no Executivo federal.
Aliado nas duas gestões do Governo Cid Gomes, o senador Eunício Oliveira (PMDB) é sinônimo desse rompimento no cenário cearense e hoje pleiteia o comando do Palácio da Abolição contra o grupo de Cid. "Quando ele sai, demonstra descontentamento com o andamento do Governo ou com o partido em que estava. Essa saída dá condições de montar um discurso de descontentamento e discórdia com o que está acontecendo e automaticamente ele vira oposição", esclarece o consultor.
Para o professor de marketing político, nas últimas quatro décadas, poucos detalhes sofreram mudanças nas campanha políticas, citando o constante avanço nas tecnologias de comunicação e inúmeras mudanças na legislação. "Está claro que as mudanças na legislação eleitoral estão sendo feitas para privilegiar quem está no poder e dificultar que as novas lideranças se apresentem ao eleitorado", opina.
O consultor Carlos Manhanelli diz acreditar que a Internet não pode ser desprezada nas campanhas, mas pondera que os políticos ainda não sabem como utilizar a ferramenta. "Ela é um arsenal de comunicação. É isso que os políticos brasileiros não percebem. Eles querem usar a Internet para fazer propaganda". E completa: "Isso só vai mudar quando a cultura do político brasileiro mudar. Ele não está acostumado a dar satisfação dos atos e a responder críticas. A Internet é digital, o político é analógico", compara.
Personalismo
Luiz Teixeira Santos, membro cearense da Associação Brasileira dos Consultores Políticos, diz que a primeira ação do marketing eleitoral é analisar as características dos candidatos, frisando que ainda predomina o personalismo nas campanhas do Brasil. "O eleitor lida com a imagem do candidato e não com o candidato em si", aponta.
"O grande desafio hoje é considerar que de junho de 2013 para cá muitas coisas mudaram na percepção das pessoas. Ninguém pode mais falar: ah, o povão é ignorante", enfatiza Teixeira. Ele complementa que, não raro, a forma dos discurso tem se sobressaído em relação ao conteúdo. "A maioria das declarações pode ser dita por vários partidos. Eles estão atinando nessa história de dizer mais do mesmo, algo mais vazio. Tem um segmento do eleitorado que percebe isso claramente", justifica.
Luiz Teixeira Santos cita frases que podem ser utilizadas por partidos com propostas contrárias, já que a profundidade dos discursos não é o forte das campanhas eleitorais. "Falta uma definição mais clara. Nem acho que tem que abrir o jogo completamente, mas não adianta ficar só lamentando os problemas. Do ponto de vista de influência, a forma como um candidato vai dizer omesmo nada pode dar resultado em votos", alega.
Para o consultor, no Ceará, é preciso que postulantes tenham cautela ao prometer mudanças, pois o Estado passou por alterações significativas nas últimas décadas. "Falar em mudança, se não tiver o casamento entre discurso e a demanda das pessoas, pode ficar perdido, pois já tivemos muitas variações na linha de poder". "O Ceará está mais à frente do que a média dos discursos das campanhas", completa.
OPINIÃO DO ESPECIALISTA
Falta ideologia nos pleitos regionais
Existe um desafio no Brasil que é fazer política num país continental. As campanhas nacionais são mais ideológicas. Quanto mais distante do município, mais se percebem propostas e visões de mundo claras, como ações de economia, políticas sociais, atuação do Estado em relação ao mercado e política monetária. Quando desce para os estados e municípios, a campanha deixa de ser programática e ideológica e passa a ser dos problemas de cada local. Quanto mais distante do eleitor, mais ideológica a campanha no sentido de defender uma visão de mundo. Isso é claramente perceptível entre PT e PSDB.
Aurizio Freitas
Diretor regional da Associação Brasileira dos Consultores Políticos no Ceará
Lorena Alves
Repórter
DIÁRIO DO NORDESTE

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