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quarta-feira, 25 de junho de 2014

Quando o poder faz mal à saúde

Foto - Evilázio Bezerra



O poder é insalubre. Os conflitos que o envolvem permanentemente, as pressões, tensões, estresse, os inimigos que se cria, as relações rompidas, as alianças hipócritas, a rotina extenuante, noites mal dormidas, os problemas que não se consegue resolver, a adrenalina das disputas, a euforia das vitórias, a depressão das derrotas, nada disso pode fazer bem ao corpo. As imagens de Cid Gomes (Pros), novamente, passando mal em cima do palanque e, desta vez, saindo carregado desacordado são impressionantes porque tornam público algo que normalmente permanece na esfera privada. E que, inclusive, governantes preferem manter escondido. Mas que sempre esteve na rotina do poder.

Quem convive cotidianamente com Cid relata que ele tem se alimentado muito mal. Além do histórico de tabagismo. Há também os relatos de que sofre de mal-estar de forma relativamente frequente, o que levou ao cancelamento de diversas agendas previamente marcadas.

Não parece ser coincidência que os três episódios em que o governador passou mal durante eventos públicos tenham sido em episódios de extrema tensão, quando tomava decisões estratégicas. O primeiro foi em meio de 2012, um mês antes de romper com Luizianne Lins (PT) e lançar Roberto Cláudio (Pros) à Prefeitura de Fortaleza. O segundo, em abril passado, na véspera do prazo em que precisava decidir se renunciaria ou não, em meio a discussões sobre a possível candidatura de Ciro Gomes (Pros) a senador e sobre se o vice Domingos Filho (Pros) tomaria posse ou não.

O último, a uma semana da convenção que oficializará quem será o candidato do Pros. Numa situação de indefinição, como a coluna salientou na semana passada, única no Brasil. Coincidência ou não, Cid precisa se cuidar. Tal recorrência de episódios não é normal. As imagens preocupam.

A FALTA DE SAÚDE NA ROTINA DO PODER
Nos últimos anos, o ex-presidente Lula, Dilma Rousseff, o venezuelano Hugo Chávez, o paraguaio Fernando Lugo, a argentina Cristina Kirchner, o colombiano Álvaro Uribe, todos foram acometidos de câncer. A ponto de Chávez, no fim de 2011, quando foi revelada a doença de Cristina, ter elaborado a insólita teoria sobre uma “tecnologia para induzir ao câncer” criada pelos Estados Unidos e que estaria sendo usada contra líderes latino-americanos.

Em 31 de dezembro de 2011, Carlos Pagni, colunista político do jornal argentino La Nacion, escreveu o interessante artigo “Por qué se enferman los poderosos” – “por que os poderosos adoecem”. Ele lembra que, durante a Segunda Guerra Mundial, seus personagens mais notórios estavam todos com alguma doença: Stalin, Roosevelt, Churchill, Mussolini e Hitler. Obviamente, quem não está no poder também adoece. Todos esses personagens poderiam padecer dos mesmos problemas caso estivessem em outra atividade. Porém, o atrelamento ao poder talvez agregue componentes adicionais.

Pagni cita o especialista Alberto Lederman, que faz uma reflexão provocativa: “Há uma idealização segundo a qual o poder é um meio para atingir determinados fins. Antes disso, o poder é uma estratégia defensiva para proteger uma vulnerabilidade emocional do mundo do sujeito. Atrás do poder vai quem precisa”. Diante do que o jornalista conclui: “Poder não é a causa. É o sintoma”.

O OCULTO E O EXPLÍCITO

Normalmente, os regimes procuram manter escondidos os problemas de saúde de governantes. Afinal, o impedimento de tomar decisões ou a eventual morte são causas de turbulência política, maior quanto mais autoritário e personalista a administração. Em função do que, em ciclos políticos cuja sustentação está pautada no carisma pessoal do dirigente, o sigilo em relação à saúde costuma ser muito maior. A mera exposição de fragilidade é um problema perante a opinião pública. 

Em 8 de dezembro de 1941, no dia seguinte ao ataque a Pearl Harbor, o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, foi ao Congresso fazer provavelmente uma das mais famosas declarações de guerra da história, na qual classificava a véspera como “uma data que viverá na infâmia”. Pois bem, o presidente tinha poliomielite, o que o forçava a andar de cadeira de rodas. No dia do célebre discurso, Roosevelt usou uma engenhoca que o permitiu, com grande dificuldade, caminhar e, assim, evitar a cadeira de rodas na qual detestava aparecer em público.
 
No caso de Cid, os problemas de saúde foram expostos publicamente de forma inequívoca. Em algo que mexe de forma tão direta com o cotidiano da população e sua condução política, a transparência – tão evitada – é bastante bem-vinda.

Por Érico Firmo - O Povo

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