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terça-feira, 11 de março de 2014

Os garis e a festa da raça

Foto: Priscila Breia

A derrota que os garis do Rio impuseram ao nem sempre sorridente prefeito do Rio Eduardo Paes teve mais de uma importância. Foi política porque obrigou o alcaide a rasgar um rebaixado acordo salarial recentemente assinado com um sindicato que lhe é submisso.
Foi econômica porque os 37% de reajuste alcançados pelos grevistas estão entre as maiores taxas conseguidas por uma categoria profissional nos últimos anos.
Mas a derrota também foi étnica. Garis – categoria majoritariamente de homens negros e pobres – insurgiram-se contra um prefeito branco e originário da classe média alta. Goste-se ou não de admitir que o Brasil se divide pela cor e pela classe, estas cisões sociais são reais e se comprovam no fato de que mais um alcaide carioca, como aliás toda a elite brasileira, vê a classe trabalhadora como um imenso navio de tráfico de seres humanos.
Arrogantemente, Paes classificou a greve como “motim” e, depois de ser obrigado a readmitir 300 garis que ele chamara de “marginais”, achou-se um “capitão” que retomara seu “navio”.
Greve, está na Constituição, é um direito. Motim foi o de 1910, quando o Almirante Negro João Cândido e seus camaradas da Revolta Contra a Chibata rejeitaram a violência contra marinheiros (também eles quase todos negros). Tomaram sete embarcações de guerra na Baía da Guanabara e puseram de joelhos a República.

Não por coincidência, fotos dos garis em greve parecem-se com um motim que expôs publicamente o lixo da tríade Paes-Liga de bicheiros-monopólio de facto da transmissão do Carnaval. Vistos por esse ângulo, os grevistas amotinaram-se e revelaram que governos temem uma semana de lixo nas ruas, enquanto desdenham de crianças sem aulas por três meses, como aconteceu na paralisação dos profissionais da educação do município em 2013.
Mas, como a vitoriosa greve ocorreu no Carnaval, é mais apropriado chamá-la de Kizomba, enredo da primeira vitória da Vila Isabel, em 1988, justamente no centenário da Abolição. Pois, a Festa da Raça de 2014 começou com a Beija-Flor vaiada no desfile de domingo, quando o puxador Neguinho cantou não o samba da escola, mas um jingle comercial. Terminou no desfile das campeães em aplausos aos garis que passavam recolhendo os restos das fantasias que se desfazem na avenida.
Só fico pensando no que diriam Brizola, Darcy e Niemeyer, se vissem essa verdadeira a apoteose do povo brasileiro no Sambódromo que criaram...

Carlos Tautz, jornalista, coordenador do Instituto Mais democracia – Transparência e controle cidadão de governos e empresas.

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