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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Um aquário na capital da seca



Foto-O Povo

Já se passaram 136 anos desde que Pedro II mandou construir dutos para aliviar a seca no sertão. O custo duplicou e a obra patina, mas vem aí um milionário desfile de peixes

A aldeia tem 20 casas de barro e taquara, à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. Nesse lugarejo de almas solitárias, o calor é tão intenso que os pássaros varam as telas das janelas para morrer à sombra, desplumados, nos quartos. À noite, moradores espalham bacias de água, para saciar a sede dos mortos em vagueação.

]Assim é a Macondo do escritor Gabriel García Márquez em “Cem anos de solidão”, inspirada em Aracataca, onde ele nasceu, no extremo norte da Colômbia. Cercado por rios e flagelado por secas prolongadas, o povoado completou 128 anos sem rede de água para consumo humano. Por seis vezes iniciou-se ali a construção de um aqueduto. Nunca chegou ao fim, mas o governo colombiano acaba de anunciar um novo plano para terminá-lo.

Talvez os 30 mil moradores da Macondo real vejam seu mítico canal concluído muito antes de 12 milhões nordestinos brasileiros receberem águas transpostas do Rio São Francisco.

Já se passaram 136 anos desde a ordem do imperador Pedro II para se construir a rede de dutos que atenuaria os efeitos da seca no sertão.

Só o surrealismo da política nacional explica: a ideia dormitou nos últimos 12 anos do Império e atravessou a República. Foi retomada na administração Getulio Vargas; virou projeto décadas depois, no período João Figueiredo; foi decretada por Itamar Franco, nos 90, assinada por Fernando Henrique e contratada por Lula, na virada do século. Agora, patina com Dilma Rousseff.

O custo duplicou em relação à licitação feita por Lula, chegou a R$ 8,5 bilhões em dezembro. E ainda vai aumentar, prevêem os empreiteiros.

A inauguração estava prevista para 2012. Mantido o atual cronograma, a rede de 620 quilômetros de canais e bombas talvez fique pronta em 2025 — quase século e meio depois da ordem imperial. Não há garantia de prazo.

A única certeza é a de que, antes das eleições, a presidente-candidata Dilma Rousseff fará jorrar águas franciscanas em algum ponto do sertão. Para assegurar essa irrigação eleitoral, canteiros de 70 empresas abrigam dez mil pares de braços e duas mil máquinas.

A atual estiagem resseca a vida de 20 milhões há um triênio. Programas sociais paliativos conservam os atingidos no isolamento, ainda que doentes (duplicaram os casos de doenças diarréicas, consequência da distribuição de água contaminada a bordo de carros-pipa).
Bolsas estatais e pipas ajudam a conter o espectro da “desordem”, como a descrita pela historiadora Kênia Sousa Rios no Ceará de 1932. Quem fugia da caatinga acabava enjaulado num dos sete campos de concentração — os “currais do governo”, como eram chamados.

A “paz social” libera governantes até para delírios tragicômicos. Um deles é a construção de um tanque subterrâneo do tamanho de 22 campos de futebol na orla de Fortaleza, sob o silêncio sorridente de Brasília, a começar pelo Ibama. O pequeno açude vai guardar 15 milhões de litros d'água ao custo de R$ 300 milhões.

É uma das maiores obras de infraestrutura hídrica do governo Cid Gomes, mas nem uma gota vai para o consumo humano. Servirá a um milionário desfile de peixes, em três aquários, na capital da seca. Puro surrealismo político, na versão Gomes: que faz o peixe, afinal?... Nada.

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