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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A morte do cinegrafista e a origem do rojão

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PM reprime manifestante no Rio de Janeiro no mesmo dia em que Santiago foi atingido por rojão
É impossível defender uso de explosivos em manifestações, pela PM ou por manifestantes. Mas o Estado agrediu tanto que agora só um gesto dele poderá deter espiral de brutalidade...

As imagens mostraram que foi um rojão – e não uma bomba de efeito moral – o que atingiu a cabeça e acabou matando na segunda-feira (10) o cinegrafista Santiago Andrade. Agora resta conhecer a origem do artefato. Culpado ou inocente, alguém será muito em breve preso e responsabilizado pelo crime, como tem que ser. Por isso, é melhor entender por que alguns manifestantes levam explosivos para os protestos do que apenas crucificar quem acendeu o pavio. Vândalos, black blocs, baderneiros, arruaceiros, terroristas, infiltrados são expressões que dizem muito sobre quem as utiliza e pouco sobre as pessoas a quem pretendem se referir. E não ajudam a compreender as razões que estão levando cada vez mais cidadãos a reagir contra a violência policial, e com cada vez mais força, durante passeatas.
Qual é o papel da polícia nas manifestações? Segundo comandantes, secretários, governadores e ministros, a polícia está lá para garantir a lei, a ordem e a segurança dos manifestantes. Quem frequenta protestos sabe, porém, que a vocação prioritária dos policiais é tutelar a passeata. E reprimi-la na primeira oportunidade, conforme orientações superiores. Ninguém em sã consciência acredita que estará protegido por uma tropa que dali a alguns minutos possivelmente estará agredindo indiscriminadamente. A própria presença dos soldados inspira desconfiança. Todo brasileiro já sofreu – ou conhece alguém que sofreu – abuso policial. Desde uma agressão ou detenção descabida até má vontade no atendimento de uma ocorrência, passando por insinuações de suborno ou uma mera demonstração de pequeno poder.
Quem costuma expressar suas reivindicações na rua nutre receios tremendos em relação à polícia. E tem suas razões, muitas e muitas delas documentadas em hematomas, sequelas ou vídeos na internet. A presença da polícia, em si, tensiona os ânimos de qualquer protesto. Não garante a tranquilidade dos atos: a coloca em risco. No limite, garante – ou tenta garantir – as vidraças. Isso, claro, nas ocasiões em que é interessante garanti-las. Quando não, elas podem ser quebradas à revelia de qualquer repressão, como ocorreu na prefeitura de São Paulo dia 19 de junho do ano passado. A preocupação da polícia em manifestações não é – nunca foi – o ser humano cidadão, seu bem-estar, sua integridade física ou sua liberdade. A polícia se preocupa mais com os direitos de propriedade e com o ir e vir do trânsito.
Uma parcela imensa de manifestantes já apanhou injustamente da polícia. Apesar disso, a violência policial em manifestações, mesmo quando comprovada, é imediatamente negada pelas autoridades. É como se seguissem uma cartilha: dizem que a polícia agiu dentro da legalidade e que excessos serão apurados. Nesses casos, os inquéritos militares ou civis nunca acarretam punições. A violência concreta, crua e objetiva das ruas é complementada pelas declarações oficiais, reproduzidas acriticamente pelos meios de comunicação de massa. É uma violência simbólica, reiterativa. Manifestantes são presos, quase sempre arbitrariamente, têm seus rostos estampados na mídia. Policiais, não, mesmo quando há imagens demonstrando abusos e irregularidades. Em São Paulo, nos últimos 13 anos, segundo dados da própria PM, nenhum policial foi punido por excessos cometidos durante manifestações. A violência das ruas, das declarações e da tevê continua com a impunidade.
Há gente que não aceita mais essa hipocrisia. Na ausência de justiça, na falência das instituições e no engodo do Estado Democrático de Direito, que só parece funcionar quando convém, uma parte crescente de manifestantes resolveu revidar de imediato às agressões da polícia. É sempre um revide, por mais que, agora, muitas vezes, sejam estes manifestantes que tomam a iniciativa no quebra-quebra. É um revide histórico, fruto de anos de abuso chancelados pela imprensa, tolerados (ou incentivados) pelos governantes e ignorados pela justiça. Ainda que não concordemos, e eu não concordo, é bastante compreensível. Alguma dose de radicalismo e enfrentamento direto, porém, costuma trazer resultados. A luta contra o aumento do transporte público em São Paulo, junho passado, e tantas outras capitais, anos antes, é um exemplo. Apenas dialogando com o poder, infelizmente, o povo não tem conseguido concretizar suas demandas.
Embora controversa, a estratégia de atentar contra bancos é minimamente aceitável porque tem como alvos objetos inanimados. Coisas. Em geral, propriedades de grandes empresas e instituições que sequer sentem o prejuízo. Por isso, se for o caso, é preferível chamá-los de atos de vandalismo – e não de violência. Violência tem como alvo seres humanos. Nesse sentido, a polícia é violenta. Os mascarados, na maioria das vezes, vândalos.
Por exemplo, no último 25 de janeiro, em São Paulo, um grupo de jovens atentou contra uma viatura da Guarda Civil Metropolitana. Os guardas fugiram correndo – e não foram perseguidos. Saíram ilesos. O grupo centrou sua ira contra o veículo. Mas há casos em que atentam contra seres humanos. Em outubro, também em São Paulo, um coronel da PM apanhou de mascarados. Não por coincidência, era um dos oficiais que ordenara uma série de repressões, nos meses anteriores. É o coronel que foi flagrado rindo quando um de seus homens estapeou a câmera de um fotógrafo. E, no momento da agressão, testemunhas afirmam, estava batendo numa manifestante. Policiais podem ser alvo dos mascarados, mas, como já foi dito, sempre em reação a agressões anteriormente sofridas: minutos antes, horas antes, dias antes, meses antes, anos.
Jornalistas de grandes meios de comunicação, idem. Manipulação da informação é violência – simbólica, sim, mas não menos dolorosa. No encontro cada vez mais rotineiro entre repórter e manifestantes, nas ruas, essa violência discursiva acaba tendo uma chance de ser compensada. Oportunidade única, dada a concentração midiática do país, que não permite diversidade de opiniões.
É horrível e desanimador pensar que chegamos a esse ponto. Que nossa democracia não conseguiu reduzir desigualdades e dirimir injustiças. Pelo contrário, parece reforçá-las, a despeito do aumento da renda observado nos últimos anos. Sobrou a rua como espaço de quem não tem espaço em nenhum lugar. Não podemos nos fazer de cegos, surdos e maniqueístas e achar que os manifestantes queimam carros de TV ou hostilizam profissionais de determinadas emissoras apenas porque estão prenhes de fascismo. Ou que atentam contra a polícia, colocando em risco sua vida, seu futuro e sua liberdade porque sofrem de uma espécie suicida de sociopatia crônica.
Essa é a origem do rojão que infelizmente atingiu a cabeça de um profissional de imprensa – e que, tristemente, para todos, acabou ceifando sua vida, destruindo uma família e traumatizando toda uma classe de profissionais. Ainda não se sabe exatamente quem acionou o artefato. Nem por quê. Ou qual era o alvo. Rojões partem sem direção. Disparado para atingir policiais ou jornalistas, é impossível concordarmos com a utilização de explosivos durante manifestações, seja por parte de cidadãos ou por parte da polícia – que lança mão não apenas de bombas de efeito moral, mas também, e demasiadamente, de balas de borracha, gás lacrimogêneo, spray de pimenta e tasers. São armas letais, não tanto como os revólveres que carregam na cintura, mas ainda assim letais. Já mataram gente dentro e fora do país, dentro e fora de protestos. Lembram da gari de Belém sufocada pelo gás da polícia, em junho?
O rojão começa a aparecer como uma resposta ao arsenal social e midiaticamente aceito que a polícia emprega sem pudor contra os manifestantes. Há anos. Pode não ser inteligente, mas é óbvio. No ciclo de violência policial, mentiras oficiais, desinformação, injustiça e impunidade, uma e outra vez, sem perspectiva de mudança, é com rojões que alguns manifestantes estão resolvendo reagir. E se proteger, ainda que ilusoriamente. Tem a ver com a lógica da paz armada: se meu adversário sabe que posso reagir a um ataque, pensará duas vezes antes de investir contra mim. Ou investirá com ainda mais força. É uma espiral que pode não ter fim. Em geral, não tem. Ainda mais depois da entrada das balas de chumbo na repressão às manifestações: a polícia deu tiros de verdade contra cidadãos desarmados no Rio de Janeiro e em São Paulo, ano passado, e disparou à queima-roupa contra um manifestante paulistano em janeiro.
O Estado brasileiro deve tomar a iniciativa – simplesmente porque é o Estado – no desarmamento dos homens que “fazem a segurança” dos protestos. Despir-lhes de aparatos ofensivos e letais seria um belo começo. Discursos contundentes e equilibrados em favor da paz, idem. Por enquanto, vemos uma presidenta calada, um ministro da Justiça que oferece mais repressão e um governador que protege abusos policiais. Se o objetivo é proteger os manifestantes, que os soldados carreguem apenas escudos, armaduras, capacetes, cassetetes. Deixem tiros, bombas e gases no quartel. E passem a tratar cidadãos politicamente ativos com o respeito que merecem numa democracia. Afinal, o alvo dos manifestantes não são os policiais – são os políticos. Mas os protestos  acabam se voltando contra os policiais porque suas armas sufocam os gritos – e a rebeldia – ora dirigidos contra os donos do poder. E isso é violência pura.
Se o Estado não der esse passo civilizatório, não podemos esperar que os manifestantes mais radicalizados retrocedam. Seria uma tremenda ingenuidade. Felizmente, os brasileiros (ao menos alguns) não são assim tão submissos à força bruta do poder estabelecido. Ainda há quem se revolte contra as injustiças – e mais ainda contra a impossibilidade de resolvê-las pela via institucional. Por isso, mais repressão estatal trará mais ódio e mais reação. Possivelmente, mais rojões. E as vítimas vão se somar, sejam vítimas da polícia, já incontáveis a essa altura, sejam vítimas dos manifestantes, intencionais ou acidentais, como o cinegrafista da Band.
Em apenas um mês e seis dias, 2014 nos presenteou com uma pessoa morta em protestos. Duas, porque um camelô também morreu atropelado ao fugir da polícia, no Rio de Janeiro. Outra permanece gravemente ferida em São Paulo – e, se sobreviver, ficará sem um testículo. Ano passado houve gente que perdeu o olho e a liberdade. Claro, também houve mortes: além da gari, dois garotos em Belo Horizonte que caíram de um viaduto e um jovem atropelado em Ribeirão Preto (SP).
Antes de pedir mais polícia, como as associações de jornalistas estão fazendo, como a imprensa está fazendo, insistentemente, é preciso atentar para o fato de que já temos alguns mortos. E que a polícia tem responsabilidade nisso, direta e indiretamente. Uma responsabilidade histórica. Um morto seria mais do que o bastante. Nunca deveria ter acontecido. Será que, realmente, teremos de ver mais cadáveres estirados na rua para começar a pensar que, ao contrário do que propagandeiam as emissoras de TV, manifestações não são nem jamais devem ser vistas como uma praça de guerra?
Brasil de Fato 

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