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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Quando um governo não está preparado para o debate


Um ano eleitoral, é sempre muito bom que a crítica e os críticos se preparem para os ataques. O pressuposto é a coragem de enfrentar o debate, que não contempla os fracos. Depois, vem o conhecimento das causas em questão e a eterna vigilância para manter o foco na qualidade do argumento. Não faltam os que fustigam para desviar a atenção tanto do crítico quanto da audiência.
O que fazer com a crítica bem elaborada, eticamente construída, consistente e, por tudo isso, certeira? Não, não se responde à crítica, afirma o artigo primeiro da cartilha da mediocridade. Não se deve produzir o contra-argumento inteligente. Melhor atacar o crítico. Difamá-lo.
Sim, o bom debate é extremamente trabalhoso. Requer tempo e, para que não se deixe o flanco exposto, requer muitos argumentos bem dotados de precisão. Uma boa contenda púbica pressupõe pesquisa e rigor na concretização do raciocínio.
Os que se dedicam ao debate precisam estudar. Queimar as pestanas. Então, melhor e mais fácil lançar mão dos ataques aos autores das críticas, mesmo sabendo-se que estas são honestas. O objetivo é confundir e gerar dúvidas na cabeça da audiência.
Há um livro no mercado que trata do assunto. Chama-se apropriadamente de Guia das Falácias, de Stephen Downes. “Ataca-se pessoa que apresentou um argumento e não o argumento que a pessoa apresentou. Ataca-se o caráter, a nacionalidade, a raça ou a religião da pessoa. Em outros casos, a falácia sugere que a pessoa é movida pelo interesse”.
O Argumentum ad hominem (do latim “argumento contra a pessoa”) é uma falácia que se concretiza quando se nega uma proposição lançando uma crítica ao seu autor e não ao seu conteúdo. Usa-se o manjado estratagema do “desvio de atenção”, tentando levar o foco da discussão para um elemento externo a ela. Daí, falacioso.
A palavra “falácia” também tem origem no latim. Vem de fallacia (trapaça, ardil, engano, astúcia). Quem pratica a “falácia” é o “falaz”, aquele que é intencionalmente enganador, ardiloso e capcioso. Na política, é importante que os eleitores saibam identificar os falaciosos. Eles borbulham por aí.
O pior dos mundos para um Governo ocorre quando seus cortesãos não estão preparados para o debate e apenas se entregam ao “agumentum ad hominem”. O motivo? Simples: como só o crítico foi atacado, a crítica elaborada permanece intacta e, no fim das contas, preponderante.
Pobres dos governos cujos únicos defensores estão a soldo. Reles são os regimes desprovidos de massa crítica voluntária. Miseráveis são as estruturas políticas apinhadas de cabos eleitorais de baixa classificação sofregamente agarrados nas tetas generosas da coletividade. Um lugar inferior na História é o que restará.
Nas democracias, a melhor e mais inteligente forma de se promover a defesa de um governo fazendo com que suas ações administrativas ecoem por muito tempo, é manter uma base intelectual ativa e que, evidentemente, esteja convencida de que tais ações são profícuas.
Costumo dizer que os governos duram quatro ou, às vezes, oito anos. Já os jornais e os jornalistas estarão sempre por aí. Os historiadores idem. Os pesquisadores e acadêmicos, também. Sempre ancorados na realidade, são estes que vão dizer quem foi o que para as gerações futuras. Ainda bem.
* Fábio Campos - O Povo

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