ABAS

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

LUTA POPULAR - “A gente constrói estrada, mas só come poeira”


Há cinquenta anos aconteceu, na pequena cidade potiguar de Angicos, algo que para muitos era extraordinário: alfabetizar adultos e politizá-los em apenas 40 horas. O idealizador desse método revolucionário foi o educador Paulo Freire.
Nesse período desenvolviam-se, com intensidade, movimentos culturais por todo o País. Tais movimentos viam na produção cultural um instrumento de desenvolvimento da consciência política das massas trabalhadoras, um instrumento de transformação social.
Em 1960 é fundado no Recife, na gestão do prefeito Miguel Arraes, o Movimento de Cultura Popular (MCP) que tem em Paulo Freire um dos seus membros mais destacados. Em pouco tempo, o MCP estende sua influência a outros Estados, e círculos de cultura são articulados com o objetivo de promover a cultura, a politização do povo e sua alfabetização.
Já em fevereiro de 1961 é lançada, em Natal, pelo então secretário da Educação, Moacyr de Góes, a campanha “De pé no chão também se aprende a ler”– na gestão do prefeito Djalma Maranhão, entendendo-se a educação e a cultura como instrumentos de libertação.
Em 1962, Marcos Guerra, presidente da União Estadual dos Estudantes do Rio Grande do Norte, forma uma equipe de alfabetizadores, estudantes (em sua maioria universitários) que se deslocam a Angicos e realizam um levantamento sobre o vocabulário da população, preparando as condições para que se realizasse o projeto inovador. Já nos primeiros meses de 1963 os estudantes organizam círculos de cultura.
A realização do projeto foi viabilizada pelo governo do Rio Grande do Norte que estabeleceu parceria com a Aliança para o Progresso, de origem norte-americana. Apesar deste financiamento, o projeto contava com autonomia político-pedagógica, condição que Paulo Freire exigiu ao então governador potiguar, Aluísio Alves.
Eram 380 os moradores que começavam sua alfabetização no dia 24 de janeiro de 1963. Ao mesmo tempo em que se desenvolvia o projeto, eram realizadas reuniões com os 21 coordenadores (alfabetizadores) dos círculos de cultura para avaliação e reflexão de sua prática.
No início, a população se mostrou desconfiada, mas em pouco tempo a identificação dos alunos com os coordenadores era tanta que, ao surgir a necessidade de mudar alguns alunos de turma, devido à superlotação, muitos disseram que não queriam trocar e que, se fossem transferidos, não iriam mais.
Sempre utilizando referências e associações com coisas do cotidiano da população, os coordenadores desenvolvem o conceito de cultura e a consciência da relação entre homem e natureza. A capacidade transformadora do ser humano diante da natureza é compreendida com exemplos simples.
A partir daí inicia-se o processo de alfabetização com a apresentação das letras, sílabas, seu lugar na palavra etc., sempre se valorizando a participação ativa dos estudantes.
Nesse processo foram introduzidas discussões sobre temas que permitiam o desenvolvimento político como cidadania, a questão do voto, direitos, lugar social na produção, organização de classe, custo de vida etc.
Um documento importante em que podemos ver o desenvolvimento de todo esse processo é o diário-livro de Carlos Lyra, supervisor dos coordenadores, que traz toda uma narrativa do desenvolvimento da experiência de Angicos. Entre outras tantas coisas importantes são citadas a colocações dos alunos sobre os debates. Entre elas, uma que exemplifica a construção de uma consciência das injustiças sociais: “A gente constrói estrada, mas só come poeira”.
A 40ª hora (aula) foi dada pelo então presidente da República, João Goulart, com a presença de vários governadores do Nordeste e de representantes da Aliança para o Progresso, e nela também falaram Aluísio Alves, Paulo Freire e o ex-analfabeto Antônio Ferreira. A aluna mais idosa, Maria Hermínia, entregou ao presidente cartas escritas pelos participantes do curso. Assim se formava a primeira turma de Angicos.
Com o término da experiência, saem os resultados da avaliação do aprendizado do experimento de Angicos: 300 participantes são considerados alfabetizados, com 70% de aproveitamento no “Teste de Alfabetização” e 87% no “Teste de politização”.
De fato a experiência de Angicos foi positiva e alcançou seu objetivo: em maio do mesmo ano, Angicos registra sua primeira greve e os proprietários rurais qualificam a experiência de Paulo Freire de “praga comunista”.
Entretanto, todo esse processo transformador foi interrompido pelo golpe militar fascista, em 1964, que manteve grande parte do povo brasileiro na escuridão por 21 anos. Paulo Freire foi preso e exilado. A repressão e a censura se abateram sobre o Brasil. Milhares foram presos, torturados e assassinados.
Mesmo com a redemocratização, a realidade ainda hoje é dura. A maioria dos municípios do Estado do Rio Grande do Norte tem 40% de seus habitantes analfabetos. Assim fica claro que as elites querem que o povo não tenha acesso à educação porque temem que os explorados e oprimidos saibam o porquê da miséria, do desemprego e das injustiças.
Alex Feitosa, Natal - Publicado no Jornal A Verdade em 03 de Janeiro de 2014

Nenhum comentário: