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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

2013, o junho que não acabou


Tentar escrever uma retrospectiva de 2013 que não gire em torno dos protestos de junho pelo Brasil é irrealizável. Junho foi o eixo em torno do qual o ano girou – tanto que o que ocorreu no mês parece dizer coisas muito além de 2013: foi a culminância de eventos que vinham de vários anos, e não é absurdo pensar que seus efeitos se estenderão longe no futuro.

A partir dos protestos de junho, 2013 fixou-se como o ano onde a população, tanto de classe média quanto nas áreas mais humildes, voltou a acreditar na mobilização coletiva. E a partir do impacto das manifestações de rua na mídia, essas diferentes mobilizações encontraram inédita repercussão. Hoje em dia, um protesto na Vila Tronco ou no Sarandi ganha espaço amplo nos grandes jornais – se adequado ou não, trata-se de outra discussão: antes, era no máximo uma nota em pé de página, quando isso. Discussões antes confinadas a gabinetes e núcleos minúsculos, como mobilidade urbana, segurança alimentar e modelos de desenvolvimento, agora estão nas ruas – de forma ainda incipiente, é verdade, mas nada começa no máximo de seu potencial. Há um potencial renovado de politização, e 2013 não é o começo disso, mas marca a visualização concreta deste processo.
Também não começou em 2013 o questionamento dos carcomidos alicerces da nossa estrutura política. Mas foi no ano que se encerra que a voz da insatisfação coletiva gritou em uníssono, tornando-se impossível de ignorar. O recado foi claro: não acreditamos mais em vocês. E a qualidade do que derivará desta agora certeza vai depender de como se lidará com ela. Os sinais não são alvissareiros: a reforma política foi engavetada, as reformas propostas no calor do momento ficaram no ar. O organismo político-partidário brasileiro parece acreditar que tudo se dissipará naturalmente, permanecendo inalterado o atual equilíbrio de forças – uma certeza baseada no passado, mas que ignora o quanto de novo há no que nasce dessas manifestações.
O aumento da passagem caiu em Porto Alegre. Eis um acontecimento que não pode ser esquecido: tanto pressionou-se que uma decisão governamental consolidada, dada como irreversível, reverteu-se. Uma vitória que pode parecer menor, mas que lançou a fagulha que acendeu protestos semelhantes pelo Brasil – que não nasceram em Porto Alegre, claro, mas encontraram na cidade um ponto de consolidação. A sociedade civil e os movimentos coletivos organizados descobriram em 2013 um poder político além do sistema partidário, uma ação política além do voto: perceberam que é possível agir agora e começar a construir mudanças de forma concreta. Mesmo que as vitórias de junho sejam pontuais, elas reforçam essa convicção: algumas coisas mudam, no fim das contas. E as consequências da consolidação dessa ideia (que é mundial, muito além do nosso quintal) são imprevisíveis.
A violência policial não é nova, mas sua contestação ganhou inédita dimensão. O esforço de mídia de criminalizar movimentos sociais vem de longe – mas sua eficácia nunca esteve tão abalada quanto agora, forçando inclusive algumas mudanças de postura impensáveis em um passado recente. Junho mudou 2013 sem mudar tanta coisa – e mudando 2013, mudou também o trajeto dos anos que estão por vir, em formas que só compreenderemos mais além.
Igor Natusch*, especial para o Jornalismo B

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