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domingo, 17 de novembro de 2013

Operador do mensalão levou para prisão segredos de casos com petistas e tucanos


Valério acredita que seu silêncio é sua garantia de vida


Quando Marcos Valério Fernandes de Souza se entregou à Polícia Federal, ele levou para a cela o que tem de mais valioso: segredos que dizem respeito aos dois principais partidos brasileiros, PT e PSDB, que não revelou e não pretende revelar, porque acredita que são a garantia de sua vida e de seus filhos.
Nos momentos mais difíceis dos oito anos que se passaram entre o dia em que Roberto Jefferson (PTB) revelou ao Brasil a existência de um “carequinha” no submundo da política brasiliense e os ministros do STF o condenaram a 40 anos de prisão mais pagamento de multa milionária, o operador do mensalão ensaiou contar tudo o que sabia ao Ministério Público. Nunca ultrapassou o limite que ele estabeleceu como garantidor de sua vida.
Durante a fase de recursos da sentença final do STF, Valério fez a mulher e os dois filhos deixarem a mansão onde viviam no bairro Bandeirantes, em Belo Horizonte, e se mudarem para um apartamento comprado por R$ 1,1 milhão. Separou-se e refugiou-se sozinho na fazenda Santa Clara, na zona rural de Caetanópolis, a 120 quilômetros da capital mineira, onde foi visto nos últimos meses cavalgando no entorno do terreno e na companhia de sua matilha de cães.
Valério operou o maior esquema de corrupção investigado, denunciado e julgado pela Justiça brasileira, mas nem por isso deixou de trabalhar como consultor durante o período em que suas atividades foram expostas. A amizade com os antigos sócios das agências de publicidade usadas no esquema, Cristiano Paz e Ramon Hollerbach, acabou há muito tempo — o contato ficou restrito aos respectivos advogados.
Mas com Rogério Tolentino — maior parceiro desde o dia em que Valério abandonou a carreira de funcionário do Banco Central e ingressou no mundo da publicidade e da política — dividiu o escritório de empresa de consultoria que intermediou negócios com o governo federal quando o processo no STF já estava com tramitação avançada e atualmente é investigada pela Polícia Federal em Brasília, a pedido do Ministério Público Federal (MPF).

Investigações em curso não são a maior preocupação dos advogados de Valério. Mesmo que caminhando a passos lentos, a Justiça de Minas Gerais analisa denúncia do Ministério Público que cita Valério como um dos responsáveis pelo desvio de verba de estatais mineiras para a campanha à reeleição do então governador Eduardo Azeredo (PSDB). Não há previsão de julgamento.
Na Justiça Federal de primeira instância Valério já foi condenado a nove anos e oito meses de prisão por sonegação fiscal e falsificação de documentos públicos e a outros seis anos por prestar informações falsas ao Banco Central, com o intuito de esconder movimentações financeiras que atenderam a campanhas tucanas em Minas Gerais. Foi condenado, ainda, a outros quatro anos de prisão por crime contra a ordem tributária. Seus advogados recorrem das três sentenças.
O operador do mensalão deseja ficar preso em uma unidade penitenciária em Minas, não apenas para ficar mais perto dos filhos. Sabe que não corre risco de sofrer no estado, ainda hoje administrado pelo mesmo grupo político que beneficiou no passado, as agressões que diz ter sofrido na Penitenciária de Tremembé, no interior de São Paulo, quando ficou preso por 86 dias na virada de 2008 para 2009. Valério passará pelo menos 6 anos na cadeia, uma vez que, depois de cumprir um sexto da pena de 40 anos, poderá ter o regime alterado.




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