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segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O drama de quem depende da rede pública de saúde no Ceará

O agricultor Manuel Sabino mora no sertão de Russas e, diabético há 20 anos, busca tratamento e respeito na rede pública de saúde Foto - Adimar Soares

O calvário de quem precisa do hospital público



Há quase um ano, o agricultor Manuel Sabino recorre a tratamento público na Capital para controlar o diabetes que se agravou. O relato dele dá voz a muitos silêncios e demonstra os absurdos que ainda existem na saúde pública...


Manuel Sabino de Souza, 56 anos, é gente. O agricultor aposentado dita a afirmação, é gente ainda que lhe falte parte da perna esquerda e que a vista se reduza a sombras. A frase se desgarra da narrativa sobre as semanas que enfrentou no conhecido “piscinão” do Hospital Geral de Fortaleza (HGF, o maior da rede pública do Ceará) - um vão onde se amontoam pacientes com doenças diversas e acompanhantes exaustos. Um absurdo onde, revive Manuel, “o dia parecia mês, e a noite parecia ano”.


Esta história começa em janeiro passado e ainda não teve fim. No início do ano, o diabetes se agravou e infeccionou um corte em um dedo do pé esquerdo de Manuel. A amputação do dedo foi feita no hospital público de Russas (160,1 quilômetros de Fortaleza), cidade mais próxima da localidade onde o agricultor mora. Mas a infecção se espalhou e, no dizer comum, apodrecia a perna. “Foi quando fui pro HGF. Lá, foi o fim da estrada”, aponta Manuel, da cadeira de rodas.


Ele conta que chegou ao HGF “por volta de 8 da noite, aí, me botaram no chão (da Emergência)”. O cunhado que o acompanhava buscou uma maca. “O maqueiro disse que era R$ 20”, relata Manuel. “Assim mesmo dura, aquelas macas do Samu, que têm o colchão dessa alturinha. Nessa maca, passei 17 dias”, soma.


A primeira madrugada, de “muita dor, sem parar”, custou a amanhecer. Manuel se queixa de não ter recebido medicamento, menos ainda compaixão. Ele foi transferido para o “piscinão” às 9 horas do dia seguinte. Então, às 4 da tarde, completa, “o médico apareceu”, receitou um remédio para a dor imensa e avisou: “Não tem leito”.

Agonia


Manuel viajou do sertão de Russas, mais de três horas na ambulância, para fazer “uma raspagem” na perna infeccionada, traduz, e extrair o que apodrecia. Sem leito, a cirurgia “foi adiando, adiando...”.


No “piscinão”, ele calcula ter ficado junto a mais de cem doentes. Inclusive, houve “um louco. Um rapaz, passava o dia e a noite gritando. Os gritos mais tristes do mundo. Uma semana todinha, não deixava a gente dormir, gritando amarrado na cama”, ressente Manuel, que “só cochilava”, no emaranhado de choros de dor, pedidos de socorro e lamentos de morte. “A enfermeira olhava e dizia: ‘Tenha paciência’. Morreram quatro ou cinco na época”, lembra.


Uma memória de holocausto. Noutra madrugada, lhe faltou o ar: “Eu pedia à enfermeira, ‘Bota um negócio (oxigênio) aqui, que estou em tempo de morrer’. ‘Só com ordem médica’. ‘E cadê esse médico?’. ‘Só vem à tarde’. Meu acompanhante pegou um papelão, e foi me abanando, e eu tomando aquele ar. Ficou até de manhãzinha”.
 



Tentativas


No “piscinão”, há sofrimento para todos os lados. Os acompanhantes “ficam quase debaixo da maca, sentados entre uma e outra, não tem espaço”. Doentes se enfileiram para usar o único banheiro. Os corpos são mexidos e remexidos, mas não se dá muita explicação. “O médico passava, eu dizia: ‘Doutor, doutor!’. ‘Calma aí!’. Dali, era só no outro dia... Eu só me lembrava de morrer”, resume Manuel.


Na segunda semana de agonia, a cirurgia foi realizada. “O doutor olhou: ‘Não prestou, não. Tem que fazer de novo’”, assustou-se Manuel. Depois da segunda raspagem, outro médico avaliou que era preciso uma terceira tentativa. Manuel cismou, “já tava só com os ossos e as veias expostos”, fez a maior confusão para ir embora. Que era gente.


O agricultor mesmo assinou o termo de saída. Antes de partir, ofereceu (de graça) a velha maca para um vizinho de sina. Nas dores em comum, teceram amizade. Era um senhor de Itapipoca, “nos seus 70 anos”, que sofria com um câncer na perna, deitado em uma “maca que vem na ambulância, estreitinha, mais perto do chão... Ele ficou feliz, porque tava vendo a hora ser pisado”.

Escuridão


Em casa, em uma rua de terra, cães e galinhas, a infecção reincidiu e Manuel amputou parte da perna no hospital de Russas. Em julho, descobriu um glaucoma. Mais uma vez, ele foi encaminhado para o HGF, referência em oftalmologia. E, mais uma vez, não havia leito para a urgência de Manuel, que já não distingue as pessoas: “Só vejo vulto”.


“O médico disse: ‘Até janeiro, tá lotado’”, repete. E, segundo Manuel – que vive da aposentadoria e da mercearia anexa à casa, se lhe pagam os fiados -, orientou para que bancasse o tratamento em uma clínica particular.


Desde então, ele peleja por consultas populares (a R$ 50). Há uns 20 dias, no exame da última retina (por onde ao menos passam sombras), descreve uma amiga que o levou à clínica, o especialista apenas entrou no consultório, com seis médicos residentes, e fez cada um desenganar a vista de Manuel como se Manuel não estivesse ali.


Mas Manuel, um homem alto e forte, é gente. Sente dor, medo, esperança. E chorou, silencioso, ao entender parte da explicação científica que o médico dizia aos residentes: que ele cegaria.
O POVO

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