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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Viaduto é indesejado nas cidades pela agressão ambiental



Com o título “Viadutos e o Parque do Cocó”, eis artigo do professor Jose Borzachiello, da UFC, que está no O POVO desta quarta-feira. Para ele, além de ser indesejado nas cidades pela agressão estética e ambiental, os viadutos são geradores de um medo urbano e acelerado processo de degradação do território onde ele é construído. Confira:

Fortaleza tenta implantar um viaduto projetado em gestões anteriores. Trata-se de obra viária concebida noutro contexto histórico, quando não se contestava nada que significasse progresso. É verdade que a consciência ecológica já se fazia bem presente em nossa cidade.
Fortaleza ficou entulhada de carros e viaduto aparece como opção de escoamento do trânsito. O problema é que, além de ser indesejado nas cidades pela agressão estética e ambiental, os viadutos são geradores de um medo urbano e acelerado processo de degradação do território onde ele é construído.
Não dá para esquecer o viaduto do cruzamento das avenidas Santana Júnior e Santos Dumont. Sua construção decretou a desvalorização de um comércio florescente que crescia nos quatro cantos do cruzamento. O que sobrou? Sob o viaduto, água empossada, sensação de insegurança a qualquer momento. A obra pouco acrescentou no plano da acessibilidade. Não permite conexões e acesso aos bairros contíguos nem à direita nem à esquerda. O custo ambiental pago em termos de agressão à paisagem é muito alto.
O problema maior no caso do viaduto agora questionado, previsto para facilitar o escoamento no ponto de encontro das avenidas Antônio Sales e Santana Júnior, foi o avanço sobre o Parque do Cocó, ocasionando derrubada de árvores. A reação popular foi imediata e não poderia ser diferente.
A sociedade reagiu quando árvores frondosas foram abatidas na quadra localizada na esquina das avenidas Senador Virgílio Távora e Santos Dumont. Tratava-se de propriedade privada. Imagine uma agressão ao Parque que é expressão de lutas permanentes dos fortalezenses pela preservação do manguezal e do verde na cidade.
Não cabe discutir a necessidade ou não do viaduto. O que está em questão é a integridade do Parque e a crítica às soluções que favorecem o transporte individual em detrimento dos de massa. Em tempos autoritários de forte repressão política, o Brasil construiu enormes mostrengos.
Em São Paulo, o conhecido Minhocão amesquinhou a belíssima avenida São João. Sob esse viaduto várias pessoas encontraram naquele espaço o abrigo possível na cidade. Há forte pressão popular para que ele seja demolido. No Rio, o viaduto da avenida Perimetral está em fase de demolição. Aqui em Fortaleza, quando do projeto inicial do Metrofor, a proposta previa para a área central, a linha em elevado, aproveitando o meio das quadras que ele atravessava. A reação foi imediata e assim se chegou ao metrô subterrâneo que atravessa todo o Centro desde o início da avenida Carapinima até o pátio da Estação João Felipe.
Fortaleza tem sérios problemas de mobilidade urbana e de acessibilidade. É necessário muito diálogo e bom senso para se chegar a bom termo. Não tem sentido dicotomizar a questão do viaduto. A reação dos ecologistas é justa. Problemas urbanos não deveriam ser caso de polícia.
Fortaleza seria menos agradável, caso fossem permitidas todas as agressões ao Parque do Cocó. Só para se lembrar um pouquinho de Maiakóvski: “Você não pode deixar ninguém invadir o seu jardim para não correr o risco de ter a casa arrombada”.
* José Borzacchiello da Silva
borza@secrel.com.br
Geógrafo e professor da UFC.
Postado também no Blog do Eliomar

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