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domingo, 18 de agosto de 2013

O traficante e o juiz: um reencontro anos após abandonarem o futebol

A história de dois amigos que jogaram juntos no Rio de Janeiro e seguiram rumos opostos: um virou juiz criminal e o outro preso por tráfico de drogas...


DO GLOBO ESPORTE.COM

Ser jogador de futebol profissional é o sonho da maioria dos meninos. Com Ronaldo Souza da Costa e Carlos Eduardo Figueredo, que se conheceram na década de 90 no pequeno time da Portuguesa da Ilha do Governador, não foi diferente. No entanto, a vida dos dois amigos unidos pela paixão pela bola tomou rumos diferentes: um virou juiz e o outro traficante de drogas. Depois de quase 20 anos, o caminho dos dois se cruzou novamente e, graças a Carlos, Ronaldo ganhou o benefício de trabalhar fora da cadeia.
- É a esperança de que o ser humano pode mudar. O Ronaldo teve uma posição de destaque no tráfico, mas que hoje abandonou isso por opção própria está voltando à sociedade, trabalhando honestamente. Isso mostrar que há chance de recuperar, que pode largar o crime e voltar pra vida que tinha antes do crime – diz o juiz.
ronaldo traficante juiz esporte espetacular (Foto: Reprodução / TV Globo)Ronaldo jogou na Portuguesa do RJ
(Foto: Reprodução / TV Globo)




















A história dos dois começou na juventude. Além do Portuguesa, a dupla jogou junta em outros times pequenos do Rio. Carlos jogava mais pela esquerda e Ronaldo era centroavante. Depois, separados, eles passaram por vários clubes do Brasil. Carlos atuou no Vila Nova, Aracruz e União Barbarense. Ele foi o primeiro a ver que o futebol não lhe daria futuro.
- O Carlos, quando a gente jogava junto, ele já estava estudando, lembro que ele ficava estudando, fazendo faculdade – diz Ronaldo.
O esforço valeu a pena e ele se formou em direito e depois passou para o concurso de juiz. Hoje, é o titular da vara de Execuções Penais e cuida dos cerca de 25 mil presos do Estado do Rio.
Ronaldo insistiu um pouco mais no futebol. Mesmo em times pequenos conheceu jogadores que se tornariam famosos, como Roger Flores, então revelação do Fluminense, que também morava na Ilha do Governador, Zona Norte do Rio. Ele defendeu o Mesquita, Linhares, Luiziania e Delfim do Equador. A cada time que passava, o centroavante tentava fugir do caminho escolhido pelo irmão, Miltinho do Dendê, o temido chefe do tráfico do Morro do Dendê, na Ilha.
- Todos tinham conhecimento que o irmão dele era o grande traficante da época na Ilha. Todos sabiam, mas ninguém tocava no assunto. Todos queriam ser um grande jogador, ele também queria, quando esse sonho foi se esvaziando e a necessidade da vida foi empurrando pra esse caminho, acho que ele realmente não resistiu – comenta Carlos.
carlos esporte espetacular juiz (Foto: Reprodução / TV Globo)Carlos foi o responsável pela assinatura da liberdade de Ronaldo (Foto: Reprodução / TV Globo)









Nos últimos anos de carreira, já desmotivado, Ronaldo começou a se envolver no mundo do crime, ainda mais depois que o irmão foi preso.
- Acabei me envolvendo normalmente. Por ser irmão dele, as pessoas me respeitavam – conta Ronaldo, que assumiu o comando do morro. 
Mas o destino dele no mundo do crime foi igual ao do irmão. Em uma emboscada da polícia, em 2003, ele foi preso. 
- É como a lei da semeadura, a gente colhe o que a gente planta, então a gente tem procurar plantar coisa boa, pra colher coisa boa, infelizmente eu não plantei.
Carlos Eduardo ficou sabendo da prisão do amigo algum tempo depois.
- É uma notícia triste porque não tem outro caminho, isso é muito claro. Na minha cabeça, o traficante de drogas ou morre ou vai preso, a vida é muito a curta. O sujeito que tem 30, 33 anos numa cadeia já é chamado de coroa. 
O processo de Ronaldo caiu na mesa de Carlos no fim do ano passado. Com um atestado de bom comportamento na prisão, o preso pedia o benefício de trabalhar fora da cadeia.
- Que história impressionante porque começou com um sonho, quase adolescentes, jovens, mesmo sonho, trabalhando juntos. Há uma separação, dois lados opostos, a vida segue e aqui na frente a gente se encontra de novo.
ronaldo traficante juiz esporte espetacular (Foto: Reprodução / TV Globo)Ronaldo acompanha a saída de Carlos (Foto: Reprodução / TV Globo)










Impedido de decidir por ter laços de amizade com o preso, Carlos deixou o processo de Ronaldo nas mãos de outro juiz. Mas, como titular da vara, foi ele quem assinou o documento que oficializou o benefício.
- Isso é um grande prazer e uma grande satisfação para o juiz porque é um grande passo pra recuperação do apenado. Nesse caso, é uma satisfação muito maior, porque é uma pessoa que conheço há muito tempo.
Durante o reencontro, Ronaldo parecia tenso, constrangido, mas a gratidão no rosto e nas palavras prevaleceram. Depois de agradecer a oportunidade e relembrar os momentos de jogador, o tão esperado momento de sair do carceragem enfim aconteceu.
- É uma sensação maravilhosa, só quem pode falar é quem se encontra nesta situação, de estar encarcerado um tempo, e ter essa oportunidade da liberdade, a tão sonhada liberdade. A vida é tomada de decisões, alguns tomam decisões erradas na vida e outros acertam. Então, vou procurar depois de ter passado por tudo o que passei, com a liberdade privada, vou procurar pensar muito mais, tomar decisões e procurar tomar decisões certas.

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