ABAS

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

É hora de resistir à prepotência

Por Valdemar Menezes - O Povo

Simulacro de negociação



O absurdo em que se transformou a determinação de realizar a qualquer custo um projeto de viaduto no cruzamento das avenidas Antônio Sales e Engenheiro Santana Jr. caminha para um desfecho condenável por conta da intransigência das autoridades em discutir uma intervenção alternativa capaz de simultaneamente melhorar o trânsito e não degradar a área. A reunião entre instituições públicas, entidades civis e defensores do Cocó, nesta sexta feira, foi completamente desvirtuada, pois não visou o diálogo para o encontro dessa solução, mas buscar apenas uma forma menos desgastante para a Prefeitura e o Governo expulsarem os acampados. É uma vergonha que as instituições defensoras do cidadão – com exceção digna do Ministério Público Federal – tenham se prestado a esse papel.


ARMADILHA




A reunião, na verdade, foi uma armadilha, denunciada com todas as letras pelo procurador Oscar Costa Filho. Tratou-se de um simulacro de negociação destinado apenas a validar a repressão. É mais uma atitude que leva ao descrédito as autoridades responsáveis. Não adianta providenciar uma manifestação “oficial” articulada pelas duas máquinas públicas para simular apoio à obra. Isso apenas esgarçará ainda mais a sucessão de erros. Não é verdade que os opositores do atual projeto sejam contrários a qualquer intervenção de engenharia no local. Querem apenas uma obra que, simultaneamente, melhore o problema de trânsito e não degrade a área, nem vulnerabilize ainda mais o Parque do Cocó. A alegação de que outra opção sai mais cara, ou de que “não há mais tempo” não tem cabimento quando se trata dos interesses estratégicos da Cidade, ante uma intervenção capaz de provocar consequências irreversíveis.


CONTRAMÃO



O fato de a Prefeitura de Fortaleza estar hoje nas mãos de um grupo defensor de um modelo antigo de desenvolvimento não sustentável e pautado pela pressão do mercado (a propósito, alguém prestou atenção na fantástica profusão de alvarás de construção emitidos num tempo recorde pela Prefeitura?), não lhe dá o direito de mudar a Cidade a seu talante. Há uma realidade social, cultural, ambiental, humana e cidadã a ser levada em conta. Esse modelo político que ignora essas dimensões e apenas se apega ao aspecto formal-jurídico, voltado para manter o poder decisório enfeixado nas mãos de poucos privilegiados, sem nenhuma transparência, está fadado a gerar uma situação de crise permanente, daqui para frente, e até de legítima desobediência civil (direito de resistência).


EMPAREDAMENTO


Vamos todos torcer para que haja bom senso dos poderes envolvidos e não se coloquem contra o desejo legítimo dos cidadãos decidirem sobre a sociedade em que vivem. Não deem as costas à História. Emparedar o cidadão, tolhendo sua maioridade política e a consciência crítica adquirida com o acesso a um fluxo incessante de informações (não se trata mais de um cidadão apático e alienado, como no passado) que lhe permitem identificar quando um interesse público maior está sendo esbulhado é apostar na convulsão social. No caso do conflito que sacode Fortaleza, é preciso ter bom senso de ouvir a pluralidade de vozes e chegar a um acordo sobre um projeto que atenda a todos (melhore o trânsito, não degrade a área, nem vulnerabilize ainda mais o Cocó) e não apenas se viabilize por imposição de um ukase judicial.

Título da postagem de Rosa 

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