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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Há três Lulas no mensalão, nenhum dignificante

As biografias, como os filmes, também podem ter trilhas sonoras. Em 2007, num discurso palaciano, Lula escolheu a sua música. Evocou Raul Seixas: “…Eu prefiro ser considerado uma metamorfose ambulante, ou seja, estar mudando na medida em que as coisas mudam.”
No caso do mensalão, Lula metamorfoseou-se três vezes. Logo que o escândalo estourou, em 2005, jurou que “não sabia” do que se passava ao seu redor. Chegou mesmo a pedir “desculpas” depois que um depoimento de Duda Mendonça acomodou a contabilidade de sua campanha de 2002 na zona de suspeição.
Dizendo-se “traído”, Lula declarou o seguinte: “Não tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que nós temos que pedir desculpas. O PT tem que pedir desculpas. O governo, onde errou, tem que pedir desculpas. Porque o povo brasileiro [...] não pode, em momento algum, estar satisfeito com a situação que o nosso país está vivendo.”
O que esse primeiro Lula disse, com outras palavras, foi que os 52.788.428 de votos que o haviam enviado à Presidência da República deveriam enxergá-lo como um bobo, não como um cúmplice. Em nenhuma das duas condições a metamorfose ambulante era o político que seus eleitores supunham.
Esse Lula atoleimado não fazia jus nem mesmo à imagem que ele fizera de si mesmo num depoimento à repórter Denise Paraná, autora do livro “Lula, o Filho do Brasil”. Lançada em dezembro de 2002, nas pegadas do triunfo eleitoral, a obra traz na página 147 uma definição de Lula por Lula:
“… Se eu não tivesse algumas [qualidades pessoais] não teria chegado aonde cheguei. Eu não sou bobo. Acho que cheguei aonde cheguei pela fidelidade aos propósitos que não são meus, são de centenas, milhares de pessoas.”
Com o passar do tempo, a fervura do caldeirão mensaleiro foi diminuindo. Em 2006, candidato à reeleição, Lula já se sentia à vontade para adotar a retórica da fábula. “Esse negócio de mensalão me cheira a um pouco de folclore dentro do Congresso Nacional”, declarou.
Nessa fase, a lenda ganhou a forma de uma denúncia. Redigiu-a o então procurador-geral da República Antônio Fernando de Souza. Servindo-se das evidências colecionadas pela Polícia Federal, o chefe do Ministério Público esquadrinhou a quadrilha, individualizou as culpas e apontou o chefe: José Dirceu.
Quer dizer: em sua segunda versão, a metamorfose informou à platéia que o procurador-geral que nomeara e reconduzira ao cargo não passava de um Esopo pós-moderno. Pior: acusou a Polícia Federal do seu próprio governo de fornecer matéria prima para a fábula do procurador-geral.
No segundo reinado, a ousadia da metamorfose aumentou na proporção direta do crescimento de sua popularidade. Em maio de 2010, quando carregava a candidatura presidencial de Dilma Rousseff, Lula referiu-se ao escândalo assim: “Na verdade, era um momento em que tentaram dar um golpe neste país.”
Em dezembro do mesmo ano, quando já se preparava para passar o bastão à sucessora, essa terceira versão da metamorfose recebeu o “chefe da quadrilha” para um café no Alvorada. José Dirceu deixou o palácio dizendo que, fora da Presidência, Lula se dedicaria a desmontar “a farsa do mensalão.”
Com a tese do “golpe”, além de ilógico, Lula soou ingrato. Cinco anos antes, quando a lama tocava-lhe o bico do sapato e o vocábulo impeachment era pronunciado sem cerimônias, o pseudopresidente mandara Dirceu ao olho da rua e despachara três ministros de sua confiança para conter os ânimos da oposição.
Márcio Thomaz Bastos, foi ao apartamento de Fernando Henrique Cardoso. Ciro Gomes voou ao encontro de Aécio Neves. Antonio Palocci reuniu-se com a nata da plutocracia e com amigos tucanos. Em poucos dias, sob a voz de comando de FHC, o tucanato desembarcou da tese do impeachment, esvaziando-a.
Com seu vaivém, Lula compromete no mensalão o bom verbete que seu desempenho no governo lhe assegurou na enciclopédia. Falta-lhe algo essencial a um político digno de respeito: nexo. Primeiro pede “perdão”. Depois injeta saci-pererê na retórica. Por último, fala de “golpe” e confraterniza-se com o “traidor” que demitira.
Para emoldurar o quadro, Lula ainda se permitiu conspirar pelo adiamento do veredicto do Supremo. Numa mal explicada conversa, ocorrida no mês passado, tratou da “inconveniência” do julgamento em fase eleitoral com um ex-presidente do STF e um magistrado no pleno exercício das funções.
De bobo, Lula migrou para a condição de borboleta vadia. Protagoniza uma inusitada volta ao casulo, túmulo da lagarta. Num processo que fulmina a pouca esperança de regeneração de métodos, posiciona-se em cena como um realista que, obrigado a lidar com uma classe política viciada, exorbitou nos meios apenas para atingir fins nobres.
A metamorfose faria melhor se prestigiasse o procurador que nomeou, a polícia que comandou e o STF para o qual enviou oito ministros, dois quais seis integram a composição atual da Corte. Entre eles o relator Joaquim Barbosa e o presidente Ayres Britto. Do contrário, a platéia fica autorizada a perguntar: se os ideais do velha libélula do sindicalismo do ABC conduzem à absolvição do cangaço, de onde virá a salvação?

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