ABAS

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Quando as disputas partidárias internas reproduzem o que não presta


 
“Quem tem consciência para ter coragem,
Quem tem a força de saber que existe
E, no centro da própria engrenagem,
inventa a contra-mola que resiste.”

(João Ricardo e Gerson Conrad – Secos e Molhados)
                

Há um tipo de disputa que acontece com muita freqüência entre os que se propuseram a caminhar coletivamente no combate ao sistema capitalista e suas formas de miséria: a disputa de poder dentro de uma organização partidária que se auto-intitula de esquerda. É a representação diante dos pares, daqueles que lutam junto, que pensam estratégias de combate aos males causados por um sistema opressor, que cerram fileiras diante do “monstro da lagoa”, que não aceitam a visão do poder dogmático, que recusam a visão do homem como objeto ou “coisa” e lutam contra a alienação social dos seres humanos.
                Essa espécie de representação deveria servir apenas para organizar tarefas internas dentro de um grupo partidário e ajudar na condução das ações que esse coletivo porventura venha a realizar na sociedade, uma vez que um partido de esquerda tem como objetivo essencial, antes de tudo, a conscientização dos trabalhadores e trabalhadoras. A realidade nos diz outra coisa. Os partidos de esquerda – ou os que intitulam dessa maneira – passaram a agir de um modo que reproduz o que há de pior na disputa por um cargo, agravando a situação com adoção de práticas sorrateiras disfarçadas com o discurso da democracia e da liberdade. Essa é, sem dúvida, outra grande vitória do capitalismo sobre as mentes humanas: a naturalização da postura antiética no fazer político.
                Há nos partidos diversos tipos de escolha de representantes. Um desses partidos pode ser tomado como referência – o Partido dos Trabalhadores – para que se tenha idéia da maneira como acontece essa representação. São escolhidas pessoas para a coordenação de núcleos e diretório nos municípios, nos diretórios estaduais e, por fim, no diretório nacional. São cargos de representação sem nenhuma conotação espetacular. Apenas com a intenção organizativa, de pensar a construção partidária de acordo com uma orientação ideológica específica e que caracteriza um grupo de pessoas, sem prevalência desse(a) sobre aquele(a). No entanto, é exatamente nesse ponto que acontece a corrupção das mentes e os valores que embalavam um ideal nobre transformam-se na crônica da disputa pela disputa.
                Em ano de eleições, esses mesmos partidos têm outra tarefa, que é escolher entre as suas lideranças – a maioria já reconhecida internamente – quais companheiros e companheiras podem representar as idéias desse coletivo nas câmaras municipais, nas assembléias legislativas, Congresso Nacional e nos Executivos dos três níveis. Se a disputa em nível interno já foi corrompida, nessa etapa o resultado não pode ser diferente. O que se vê são contradições e “esquecimentos” voluntários. A organização interna do PT, por exemplo, permite a existência de tendências internas e elas desenvolvem um trabalho fundamental nesses momentos, tanto para o bem quanto para o mal. Vale lembrar que a mesma paranóia egocêntrica também ocorre no interior dessas correntes. É o vale-tudo dos que querem o poder e precisam manter-se em evidência, nem que tenham que matar a mãe com requintes de crueldade.
                Esses “esquecimentos” voluntários que ocorrem nos processos de disputa têm também o condão das transformações das essências ideológicas e das idéias fundamentais. Uma dessas transformações ocorre na própria idéia do que significa um partido político e para o que serve a sua estrutura. É comum ouvir a expressão que este ou aquele político tem o controle da “máquina partidária”. Essa imagem da “máquina” não é nova e tem uma abrangência ampla, incluindo as ciências e a reflexão acadêmica sobre a vida. Os partidos de esquerda absorveram esse conceito mecanicista e nunca mais se livraram dele, mesmo com todos os alertas a respeito da burocratização e inversão de valores que isso acarreta. A resposta aos alertas é sempre a mesma, do tipo “assim caminha a humanidade”.
                Essa idéia perigosa permite a existência das piores práticas de bastidores. Vê-se pretensos candidatos a cargos eletivos movendo céus e terras para garantir maioria em fóruns de decisão, pagando filiados de ultima hora para garantir o ingresso na calçada da fama e transferindo a responsabilidade dessa futura eleição para militantes apaixonados, que ainda acreditam numa idéia romântica de mudança da sociedade. Caso algum(a) militante deixe de concordar com a “maquina”, ele(a) é automaticamente submetido(a) ao processo de exclusão velada ou, dependendo do caso, explícita mesmo. Aquela idéia de que a sociedade baseada no respeito às diferenças e na justiça social fica cada vez mais longe.
                O que foi corrompida foi a idéia geral do fazer político e, sendo assim, todo o resto da prática acompanhou o raciocínio da inevitabilidade de “sujar as mãos”. Naturalizaram-se as formas ruins de disputa e foram adotadas algumas máximas pretensamente democráticas, para justificar os desvios de conduta. Receita pronta, mãos à obra. Afinal de contas, tudo cabe no discurso que usa as palavras “democracia” e “liberdade”, especialmente nos pronunciamentos pensados para maquiar a realidade. Grandes mentiras já foram ditas utilizando-se combinações dessas duas palavras. Por isso, é fácil entender a defesa cega feita por alguns militantes de algumas condutas antiéticas de suas lideranças partidárias. Entender sim, aceitar é outro departamento.
                A lógica das ações tortas é simples, o que não quer dizer que seja aprovável. Aliás, não é aprovável de jeito nenhum. Porém, acontece. O que se pode fazer diante da armadilha? A resposta não vem no singular. Dentro do campo ético há vários caminhos e eles podem ser vividos, antes mesmo de serem pronunciados. A verdade pode servir como base, o que já destrói a possibilidade da demagogia e das “decorações” no discurso. Assumir a corrupção das idéias não é uma tarefa fácil nas disputas internas e quem se vê questionado nunca admitirá um erro como esse, pois sabe que isso pode significar a derrota moral com conseqüências fatais e irreversíveis.
                Partidos com histórias ligadas ao movimento social em sua essência e origem são, com certeza, palcos perfeitos para as disputas que carregam grandes contradições. São os militantes desses partidos que questionam as posturas autoritárias de suas lideranças e, por conta disso, provocam um certo desconforto nos diretórios nacionais de seus partidos. Quando a máxima essencial de uma ação partidária é, por exemplo, chegar ao poder de qualquer maneira, é dado um aval para que qualquer acordo possa ser feito a fim de atingir o objetivo, incluindo aí andar de mãos dadas com pessoas que defendem idéias antagônicas.  Isso pode ser insuportável para alguns, mas perfeitamente normal para outros, uma vez que o pensamento que dá o suporte a isto já foi interiorizado e entendido como “fazer política é isso”. Em outras palavras, cria-se argumento para normalizar a imoralidade.
                Apesar de servir tanto para o mal quanto para o bem, há uma máxima que parece encaixar-se perfeitamente na primeira opção, muito mais do que na segunda, que diz serem inteligentes aquelas pessoas que conseguem solucionar os problemas que lhes aparecem ou, adotando uma expressão popular, são os sujeitos “que têm as suas saídas”. Ser ético, no entanto, não significa saber o que fazer em situações inusitadas, mas como fazer, como agir de uma forma que não atropele valores essenciais e que visam o bem coletivo, evitando aquela prática sorrateira já citada, que só pode ter como resultado o “fazer político” corrompido. Quando as práticas partidárias internas permitem ou encaram isso como normal, está na hora dar atenção ao semáforo amarelo intermitente e inventar uma contra-mola que resista ao bombardeio do controle e do enquadramento ideológico.

 
Blog do Will - http://chutobalde.com

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